Um pedaço da ficção em que venho trabalhando, a primeira página e meia. Acho que estabelece bem o tom da história:
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No tampo da
baia, a vibração. Uma pausa, breve, de criar uma esperança, e depois de novo,
vibrando. Não era uma mensagem, era ligação. Claro, ela não era de mensagens,
ela era de ligar, fazer o celular tocar e tocar. A espera por resposta seria
inadmissível, mesmo o instantâneo não era rápido o bastante, e devia já estar
se incomodando com a demora, em leve xingamento sobre como as pessoas conseguem
ser tão irresponsáveis, esquecerem seus aparelhos no silencioso. Antes fosse
esquecimento.
Não, não precisou
esticar o pescoço para poder ler na tela do aparelho que deveria ter ficado
dentro da bolsa, esquecido, e não ali, gemendo seu vibrar contra a madeira
prensada de cor clara e vagamente agradável da mobília de seu trabalho. Outra
vibração, insistindo. Sentiu o olhar da colega ao lado em pergunta, como se
tivesse o direito de perguntar qualquer coisa, você não vai atender isso aí
não.
Não. Já não
bastava aquela noite que estava para perder, bem na beira do fim de semana que
chegava sempre com ares de finalmente, precisava perder também sua paz agora da
tarde, ou o que restava dela ante a expectativa do evento por vir. O sorriso
fotogênico de sua mãe com seus óculos elegantes emoldurando os olhos de um azul
que ela não havia herdado, a tela acesa projetando para ninguém e o teto aquele
rosto e nome, insistentes, vibrando. A tela se apagou com o fim da chamada, mas
já sabia que seria questão de segundos até que recomeçasse.
Não tinha como
ser diferente. De novo a vibração, aquela iluminação inútil, o desgaste. Como
se nunca pudesse sair de perto, descer ao restaurante do tribunal para tomar um
café que não fosse o de licitação disponível nas garrafas térmicas velhas e encardidas
que sempre vazavam pelas laterais respingando na parte externa dos copinhos descartáveis,
ir ao banheiro com aquele cheiro forte de detergente para esconder o de urina sem
querer contaminar o telefone com todas as bactérias resistentes às limpezas
matinais, ir à sala da chefia para ter uma conversa mais demorada que não fosse
sujeita a interrupções das mais aleatórias e inúteis, barulho de mensagem às
vezes só propaganda oferecendo empréstimo para milhares de números vazados ou
vendidos usando até a flexão de gênero errada, não importa, ainda conseguiam
seus trouxas (palavra aliás unisex, nada mais justo). É dívida, perguntou a
colega ao lado, sorrindo da própria piadinha.
Não, é minha
mãe, vai ter jantar hoje na casa dela, com meu irmão e o marido dele. E você
não vai atender? Ela não respondeu à colega, que emendou ainda com um vai que
ela precisa que você compre alguma coisa pra levar. Dicas de convivência vindas
de alguém que não conhece a pessoa sendo discutida, sempre muito úteis. Óbvio
que não faltava nada para o jantar, nunca faltaria. Estaria tudo comprado desde
pelo menos terça-feira, preparado desde ontem, exceto o precisava ser fresco,
que estaria sendo preparado nesse momento ou até mais tarde um pouco. Qualquer
parafuso fora do lugar seria corrigido ou eliminado muito antes de qualquer
pedido por ajuda, salvo em caso de incêndio.
E não, a
ligação estava vindo do número fixo, quanto a isso estava tudo certo.
Aliás, por que
afinal precisaria ser numa sexta feira, a última aula que ela dava era na
quinta à tarde, poderia ter marcado na quinta. Não sabia das aulas do papai
naquele semestre, mas sem dúvida seria uma informação irrelevante.
Desistiu, e
pegou o aparelho.
– Por que
tanta demora? – antes mesmo de um alô.
Hoje tá bem
movimentado aqui, mãe. Uma mentira que ela sabia que não convenceria ninguém, mas
a incredulidade foi bem absorvida pelo do breve silêncio que seguiu sua
desculpa.
– Bem, tanto
faz. Eu queria te pedir para você chegar um pouquinho mais cedo hoje, preciso
da sua ajuda com uma coisa.
Ai, mãe, já
tava combinado tudo com a babá, o horário, ela só tem o carro dos pais a partir
das sete e meia.