sexta-feira, 18 de outubro de 2013

de "Middle C", William H. Gass

(parágrafo de p. 52-53)

"Those who suffered the plague and survived: they suggested to Joseph Skizzen the unpleasant likelihood that Man might squeak through even a loss at Armageddon, one death per second not fast enough, and outlive the zapping of the planet, duck a fleet of meteors, hunkerbunker through a real world war with cannons going grump to salute our last breath as if horror were a ceremony, emerge to sing of bombs bursting, endure the triggers of a trillion guns amorously squeezed until every nation's ammo was quite spent, and all the private stock was fired off at the life and livestock of a neighbor, so that in battle's final silence one could hear only the crash after crash of financial houses, countless vacuum cleaners, under their own orders, sucking up official lies, contracts screaming like lettuce shredded for a salad, outcries from the crucifixion of caring borne on the wind as if in an ode, the screech of every wheel as it becomes uninvented, brief protests from dimming tubes, destimulated wires; though the slowing of most functions would go on in silence, shit merded up in the streets to be refried by aberrant microwaves, diseases coursing about and competing for victims, slowdowns coming to standstills without a sigh, until the heavy quiet of war's cease is broken by... by what? might we imagine boils bursting out of each surviving eye... the accumulated pus of perception? a burst like what? like trumpets blowing twenty centuries of pointless noise at an already deaf-eared world... with what sort of sound exactly? with a roar that rattles nails already driven in their boards, so... so that as the sound comes through their windows, houses will heave and sag into themselves, as unfastened as flesh from a corset; yet out of every heap of rubble, smoking ruin, ditch of consaguineous corpses, could creep a survivor - he was such a survivor, Joseph Skizzen, faux doctor and musician - someone born of ruin as flies are from offal; that from a cave or collection of shattered trees there might emerge a creature who could thrive on a prolonged diet of phlegm soup and his one entrails even, and in spite of every imaginable catastrophe salvage at least a remnant of his race with strength, the interest, the spunk, to fuck on, fuck on like Christinan soldiers, stiff-pricked still, with some sperm left with the ability to engender, to fuck on, so what if with one leg or a limp, fuck on, or a severed tongue, fuck on, or a blind eye, fuck on, in order to multiply, first to spread and then to gather, to confer, to wonder why, to invent, to philosophize, to accumulate, connive: to wonder, why this punishment? to wonder, why this pain? why did we - among the we's that were - survive? what was accomplished that couldn't have been realized otherwise? why were babies born to be so cruelly belabored back into the grave? who of our race betrayed our trust? what whas the cause of our bad luck? what divine plan did this disaster further? why were grandfathers tortured by the deaths they were about to sigh for? why?... but weren't we special? we few, we leftovers, without a tree to climb, we must have been set aside, saved for a moment of magnificence! to be handed the trophy, awarded the prize; because the Good Book, we would - dumb and blind - still believe in, said a remnant would be saved; because the good, the great, the wellborn and internetted, the rich, the incandescent stars, will win through that... that... that we believed, we knew, God will see to our good outcome, he will see, see to it, if he hasn't a belly full, if the liar's, the liar's beard is not on fire like Santa Claus stuck in a chimney"

domingo, 8 de setembro de 2013

A não-unidade de uma obra literária, e de repente um novo ânimo

Nem sei se vou conseguir colocar estes raciocínios de uma forma que vá fazer muito sentido, mas lendo Falling Man do Delillo eu me dei conta de quanto realmente um livro nunca existe por si só, que ainda que o objeto seja claramente demarcado por início e fim no mundo físico, seu texto se relaciona com o leitor e com o mundo de maneira bem menos estanque.

Delillo é um dos maiores autores americanos da atualidade, e ainda que no Brasil seja publicado pela Companhia das Letras e há muito tempo, não é um cara que eu vejo as pessoas discutindo com muita frequência. Várias vezes já falei dele com as pessoas como sendo a primeira vez que eles ouviam falar do cara. Ruído Branco, sabe, grande romance, etc. (certamente uma das leituras mais impactantes da minha vida, mas um pouco disso talvez tenha sido a idade...). Falling Man é o livro dele sobre o Onze de Setembro, seis anos depois do evento. 

Algum leitor que pega este como primeiro livro do Delillo para ler pode sair com a impressão que toda a estilística típica dele (os livros todos dele são meio que todos parecidos) fosse uma construção específica para lidar com a questão do Onze de Setembro, certo exagero retórico misturado com vazio humano, paranoia tecnológica e abundância meio extravagante de conceitos e discussões semi-teóricas a respeito de assuntos variados e bizarros... A forma como todo mundo é meio que parecido, ainda que ocupem vagas variadas nas hierarquias do mundo (ficando bem longe de ser um afago democrático/demagógico). Conversando com o Vinícius Castro, chegamos à descrição de "místico-tecnológico". É um cara bem estranho e sagaz.

Alguém poderia achar que toda a tensão meio frustrante do livro (diferente da tensão meio prazerosa do thrillers comerciais) seria algo que tenha vindo do evento, quando na verdade todos os livros do delillo são meio que escritos neste espírito de paranoico-órfão, o perseguido saudoso de saber o que lhe persegue. Pouco do estilo (e não incluo nisto só a estilística) é especificidade do assunto. Não é alguém naquele momento atordoado pelo impacto do ataque, é alguém sempre atordoado pelo mundo como um todo, talvez um pouco mais diante daquele momento impressionante.

(usando um exemplo nacional, é como se alguém pegasse o jeito despedaçado (ou multi-pedaçado) do Diario da Queda para falar que foi aquela a forma de abordar o assunto difícil do livro, quando o Laub vem trabalhando desse jeito há um tempo, já)

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É triste e talvez inevitável que o leitor com o tempo vá se tornando meio insensível a sua própria atividade favorita. Vários e vários e vários livros lidos, o prazer intenso do início da vida enfiado em páginas ficcionais vai se transformando um prazer familiar, o abrir de um livro se torna em uma espécie de retorno a própria casa, e ninguém chega na casa em que se chega todos os dias fazendo acrobacias de alegria. Talvez não seja tão a toa que tanta teoria e crítica literária sejam escritas em tom de desconfiança e desencantamento, o crítico com o dedo apontado em riste para o objeto que se torna como que um réu. Talvez seja porque até o crítico/teórico tenha acumulado bagagem e carreira o bastante para ser amplamente lido, ele também passou por esse desgaste dos anos. Sinto um pouco isto quando me deparo com o triste fato de ver o quão é adequada a expressão "entusiasmo controlado" para falar de um livro que estou lendo e estou gostando bastante, que um sumiço repentino e inexplicável daquele livro do universo das coisas existentes, interrompendo minha leitura, nem me causaria tanta angústia assim. A empolgação parece coisa impossível, antiga.  A leitura do primeiro e, depois, do último capítulo do Falling Man como dissipou (momentaneamente) todo esse cansaço. 

Sabendo que é terrivelmente brega colocar a coisa dessa forma, tive mesmo a impressão de estar sendo iluminado pelo talento extraordinário dele de conseguir capturar uma coisa escrota e exaustivamente explorada na mídia e no mundo em prosa literária de deixar o leitor pasmo. Papos sem fim a respeito da impossibilidade da literatura dar conta da realidade e a mera leitura daquelas páginas traz com vivacidade todo aquele acontecimento como que no dia em que aconteceu, quando os videos de então de tão vistos e repetidos só trazem hoje o enfado. O resto do livro não é do mesmo nível (seria possível?), mas as descrições do início e do fim são inesquecíveis. É talvez meio doente, mas sempre que pensar em onze de setembro agora eu penso entre outras coisas que teve alguém que conseguiu escrever o que aconteceu, e eu sei quem foi.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Algumas leituras

Reli esta semana o primeiro capítulo do Mãos de Cavalo, do Daniel Galera. Continua brilhante. Sete anos pra literatura é bem pouco tempo (olá, Camões), mas para a vida de um leitor jovem (claro, cada vez menos jovem) nem é tão pouco assim. Poucas experiências de leitura são piores do que uma releitura decepcionante, e 

Tem se tornado algo meio cool falar mal dele por conta de todo seu sucesso editorial, o que é certamente previsível, uma vez que o intelectual brasileiro já exibia características hipster antes de existir a palavra hipster (só lembrar da frase do Tom Jobim falando que o sucesso no Brasil é imperdoável), e mesmo que um lançamento ou outro dos mais recentes dele parecem contribuir um pouco para esta mini-multidão pisoteadora,  ainda acho aquele livro algo bastante incomum. Fiquei com vontade de reler, mas estou para fazer uma viagem meio longa e no momento preciso de livros demorados. 

(Tô indo levando o Gravity's Rainbow, que criminosamente (para um anglófilo fã do contemporâneo) ainda não li.)

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Falando em livros demorados, depois de alguns meses e certa insistência que só pode ser caracterizada como teimosia terminei o The Recognitions, do William Gaddis. Coisa horrível chegar ao fim de 950 páginas de um romance e se dar conta que será necessária uma segunda viagem por cada uma daquelas páginas para poder dizer algo minimamente substancioso sobre o livro. Só posso dizer que recomendo. Tem muita coisa confusa e obscura, sim, começa de um jeito, continua de outro, vira um terceiro, volta pro primeiro jeito, cria um quarto, repete o segundo, faz um outro a um ponto que você já perdeu a conta... é um bicho bem sui generis, mas também alguns trechos lindíssimos, inclusive uma expressão que por algumas horas foi título do meu romance que nunca fica pronto, "Refletindo luz de lugar nenhum".

Inclusive o post "Abre Aspas 7", em que cito da introdução do William Gass uma imagem maravilhosa de um órgão fazendo ruir uma catedral como ideal de romance é a cena final do romance do Gaddis.

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Uma das minhas primeiras reações, mesquinha e babaca, ao ouvir da existência do livro da Karen Green, o Bough Down, em que ela fala sobre o processo de luto em cima do suicídio do marido, é de que era uma aproveitadora/capitalizadora daquela desgraça, fazendo um livro em cima disso, cretina, etc. Pura estupidez, claro, primeiramente no plano monetário (já que o livro muito provavelmente não chegará às listas de best-seller) e também, mais importante, no plano do conteúdo mesmo, uma vez que quase toda boa literatura nasce de amarguras profundas, causada por um terrível evento ou pelo somatório de várias pequenas amarguras, o dilema já apresentado láááá em Aristóteles que uma desgraça transformada em arte por algum motivo redime ou pelo menos apresenta uma sensação de redenção, coisa que já é alguma coisa. O livro me chegou esta semana. É bem bonito. A parte das artes plásticas não me interessou tanto, talvez por eu ser neste assunto bem ignorante, mas algumas frases e momentos permaneceram comigo depois do livro fechado, como o médico falando pra ela "bem, ele não era tão perfeito assim pra você já que ele se matou, né?" ou "algumas almas são tão perdidas elas criam sua própria privacidade, elas não precisam de paredes", ou "não é tarefa de uma vida se tornar indestrutível". A cena inteira do policial perguntando por que ela cortou a corda em que ele estava pendurado e ela respondendo que era porque talvez, a dela indo visitar o farol com os pais dele... Não sei se é um livro que eu sairia recomendando por aí (talvez o interesse inteiro meu esteja no morto), mas que é bem escrito e bonito, é. Espero que ela esteja bem.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Paulo Scott e a Copa da Literatura Brasileira

Podem desconfiar de tudo que digo aqui, afinal, escrevi um dos textos do tal evento Copa da Literatura Brasileira. Pode-se, com provável má-vontade, resumir tudo isto que vou escrever aqui com "ele está apenas defendendo o seu", ainda que o que seria propriamente meu nisto tudo talvez não seja tão fácil de apontar.

Pré-requisitos para entender o post: saber que existe um evento chamado Copa da Literatura Brasileira, e que o Paulo Scott pediu para retirarem o livro dele, falando que é contra competições e etc. O primeiro dá pra descobrir o que é usando o google, e o segundo indo na página do Scott no Facebook. 

Preâmbulo importante 1: Habitante Irreal, romance do Scott, é um tremendo livro. Se não fosse o final um tanto apressado e estranho, seria sem dúvida um dos grandes romances da literatura brasileira (e não omito o contemporânea aqui por acaso).

Preâmbulo importante 2: Indiretamente, é devido ao próprio Paulo Scott a minha presença no evento da Copa. Quando li o romance dele, rascunhei algumas impressões (na milésima iteração da minha atividade favorita da época, o Fazer Qualquer Coisa Que Não Fosse Minha Dissertação) e enviei para o e-mail dele. Ele respondeu com atenção e entusiasmo incomuns (a maioria só responde aos meus e-mails chatonildos com uma linha ou duas de obrigado, como imagino que eu mesmo faria na situação deles), falando que eu deveria entrar em contato com cadernos culturais para escrever sobre literatura, me passando uma dúzia (sem exagero) de e-mails de contato. Dentre esses contatos estava o do Jornal Rascunho, que me aceitou para o serviço de resenhista-a-troco-de-exemplar-de-divulgação (um grande upgrade considerando meu status anterior, rabiscador-de-email-após-exemplar-comprado). Depois de fazer umas quatro ou cinco resenhas, fui chamado pela comissão para participar do evento. Além da admiração pelo ótimo romance (que, convenhamos, não é o tipo de coisa que aparece na literatura brasileira com tanta frequência) que ele fez, o Scott conta ainda com minha gratidão. Gostei muito de ser resenhista (ainda que brevemente, já que interrompi os serviços para escrever meu romance) e gostei muito de escrever esse texto pra Copa, que foi o texto crítico de minha composição que mais me deixou satisfeito, o que eu acho que mais consegui transmitir o que é Literatura para mim.

Relutei um pouquinho diante do convite de participar na Copa da Literatura. Eu já conhecia o evento de anos anteriores, e já tinha lido algumas das críticas/partidas. São de qualidade variável, mas que agrupamento neste mundo não é de qualidade variável? A coisa me parecia divertida e despretensiosa, mas, junto com Scott, a coisa da competição direta, frente-a-frente, me era incômoda. De tal modo que o texto que compus para o evento, feito há mais de um mês, abre justamente falando desta questão (em extensão exagerada, inclusive): como colocar um livro diretamente contra o outro, quando cada obra opta por si própria os parâmetros pela qual ela opera? Como comparar Machado de Assis com Guimarães Rosa, falar que falta neologismo no primeiro ou subversão bem-escondida no segundo? Falta pacto demoníaco no primeiro e falsos-cornos no segundo? Falar assim no seco que um é melhor que o outro não é uma forma meio exagerada (beirando o autoritário) de se dizer que se prefere um ao outro?

No entanto, o aspecto jocoso da coisa toda, colocado da maneira mais explícita possível (tem uma rodada de zumbis na parada, véi), a meu ver esvazia consideravelmente qualquer pretensão de objetividade. Inclusive, acho que o evento traz um pouco de humor e informalidade declarada a um campo que frequentemente se esforça para ser sempre o mais sisudo possível, a todos os momentos, talvez por tentativa de esconder a superficialidade de muito do que nele é dito. Quem nunca viu a cena de um cara tratando de botar a cara mais séria possível para dizer no fundo no fundo que não gostou do livro sem entrar em qualquer detalhe a respeito disso?

Outra coisa que me motivou a aceitar o convite é o mistério por trás da caixa de comentários desse evento: por algum motivo, talvez  por tentar juntar tudo com a coisa do futebol (onde todo mundo tem sempre uma opinião e sempre quer expressá-la), vejo nos anos anteriores que a caixa de comentários não ficam às moscas como ficam na maioria dos blogs sobre literatura, e o que aparece escrito nelas não é só um "mandou ver", "isso mesmo", etc. O pessoal aparece e opina mesmo, às vezes de maneira meio estúpida (afinal, estamos falando de internet, em que a morte de um panda na china pode fazer um cara nos comentários comentar ter vergonha de ser brasileiro), mas ainda assim é gratificante ouvir mais do que o eco da própria voz.

Interessantemente, coube a mim neste evento falar de um livro que recebeu o prêmio São Paulo de literatura e seus respectivos 200 mil reais, o vermelho amargo, do Bartolomeu Campos de Queiros. Lá na frente do exemplar do livro estava sua tarja azul anunciando o prêmio, dizendo melhor livro do ano, prêmio são paulo etc. Isto me ajudou a relativizar ainda mais (já tinha aceitado o convite) a ideia de que com o evento se impunha uma competição algo que não era competitivo. A própria ideia de prêmio literário já não seria uma espécie de aval de superioridade em relação aos não-premiados, aval que carrega ainda o peso da grana que vem junto com o título? Os tais duzentos mil reais do Premio São Paulo equivalem à vendagem de cerca de (imaginando aqui o autor recebendo 10% do valor de capa do livro) cinquenta mil cópias, número quase nunca (quase nunca meeeesmo) alcançado por qualquer livro de Literatura Séria no Brasil. O próprio Habitante Irreal, do Paulo Scott, ganhou (merecidamente) o prêmio da Biblioteca Nacional, e não os vários outros livros também inscritos pelas editoras para ganhar o prêmio. Se na copa da literatura a coisa da competição talvez fique um pouco mais absurda colocando os livros um-contra-um, diretamente, acho que a ausência de prêmio-em-dinheiro totalmente desproporcional às vendagens de literatura séria (que por si só já sobem um pouco por conta do prêmio) mais do que relativiza a ideia de que o que se faz com a copa é impor competição nas expressões de subjetividade e visões de mundo individuais que compõem a Literatura.

sábado, 13 de julho de 2013

Para que o blog não fique inteiramente às moscas, um poema que eu gostei muito

Continuing To Live (by Philip Larkin)

Continuing to live - that is, repeat 
A habit formed to get necessaries - 
Is nearly always losing, or going without. 
It varies. 

This loss of interest, hair, and enterprise - 
Ah, if the game were poker, yes, 
You might discard them, draw a full house! 
But it's chess.

And once you have walked the length of your mind, what
You command is clear as a lading-list.
Anything else must not, for you, be thought
To exist.

And what's the profit? Only that, in time,
We half-identify the blind impress
All our behavings bear, may trace it home.
But to confess,

On that green evening when our death begins,
Just what it was, is hardly satisfying,
Since it applied only to one man once,
And that one dying.

sábado, 4 de maio de 2013

Gênio não-instantâneo

É uma das burrices que com mais frequência se reinstauram em minha consciência, o fato de sempre me espantar quando me deparo com uma obra marcadamente inferior de alguém que algum dia produziu algo verdadeiramente grandioso. É talvez uma das poucas crenças adolescentes que ainda carrego comigo (foram embora "ateísmo é grandes coisa", "ser leitor assíduo é grandes coisa" e "eu sou grandes coisa"... tá, confesso que essa última não foi embora por completo), a crença de que o artista de alguma forma nasce decidido e definido, crença completamente insustentável diante da riqueza de provas contrárias oriundas da maldita empiria. 

Quando vejo que Boyhood, do Coetzee, veio apenas 5 anos antes de Youth, que Child of God, do Cormac  veio apenas seis anos antes de Suttree e The Prague Orgy, do Roth, veio menos de uma década antes do Sabbath Theater (sendo que ele tinha escrito livros ótimos antes mesmo do Prague Orgy), sempre parece que há algo de errado. Ou, para  cairmos em terras nacionais, que o Breve História do Espírito, do Sérgio Sant'Anna, é de apenas três anos antes d'O Monstro.

Todo meu aparato racional reconhece que muito do ato de escrever é uma questão de experiência (não só de vida, e talvez nem mesmo primeiramente de vida) , de técnica, de aprimoramento, de paciência e diligência. Mas a superioridade acachapante de certas obras carrega consigo uma certeza meio besta de que elas são feitas de outra coisa que não a mesma das obras inferiores, que elas saíram de outro espírito ou outra realidade ou sei lá (minha disposição de ficar completamente boquiaberto diante de certas realizações estéticas não foi das coisas adolescentes que larguei pra trás). Daí a dissonância da disparidade, ainda mais  quando uma coisa claramente nasceu de outra (Child of god me parece muito um rascunho de Suttree, Boyhood e Youth são da mesma trilogia, etc).

Talvez esta sensação de superioridade acachapante (que nem mesmo não tem reconhecimento universal, nem em leitores de boa vontade ou de aparente afinidade estética... tem quem gosta do Blood Meridian e acha o Suttree chatérrimo) seja o que me devolva à ideia meio adolescente de genialidade intocável e inalcançável, quando o percurso do próprio autor por meio de seus livros menores mostra que isto foi algo alcançado, provavelmente a muito esforço e custo.

O engraçado é que eu deveria na verdade sentir alívio ou alegria diante desta realização, afinal, uma das crenças adolescentes que abandonei é que meu primeiro livro é grandes coisa. Destas experiências eu provavelmente deveria tirar ânimo de que talvez algum dia eu consiga construir uma contribuição de peso semelhante ao das obras que eu tanto admiro. Mas daí eu provavelmente precisaria de mais paciência, de escrever um primeiro romance que conscientemente fosse um primeiro romance, um segundo romance que fosse um segundo romance (Suttree foi o quarto livro McCarthy, que até que chegou cedo em sua expressão máxima), e não me deparasse com desespero quase toda hora com a ambição desmesurada do rascunho no qual estou trabalhando (que atualmente se encontra na página 126 e ainda muito longe do final).

Ainda que eu goste bem mais da música do Beethoven, que aos poucos foi encontrando sua grandeza, é a  de Mozart compondo pecinhas bonitinhas aos cinco anos a imagem que parece ainda prevalecer como a do artista genial, aquele cara que apareceu pronto e imediatamente diferente.

(post motivado pela leitura de "Música Anterior", do Michel Laub, livro em que só vi o valor desse elemento motivacional mencionado acima. Não estou dizendo que o Laub esteja no nível do Cormac, Coetzee, Roth, Sant'Anna, mas que o Diário da Queda não está tão longe do Desonra, do Mancha Humana, do Crime Delicado, não está mesmo)