Aí, para quem não teve tempo ou ânimo de ler minha dissertação:
http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2014/06/auge-e-derrocada-do-empenho-literario.html
segunda-feira, 9 de junho de 2014
sábado, 17 de maio de 2014
Abre aspas
Eu nem sei o que eu daria para escrever assim
(algumas coisas ficam soltas sem o contexto, mas considerando que outras ficam soltas mesmo com o contexto eu vou deixar assim mesmo, sem legendas para entendimento dos detalhes. O principal é a música, mesmo)
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"The years were never an element, because my parents didn't age, they simply sickened. My father was mean and cocky like Cagney all the way to the dump. Flat on his back, his bones poking this way and that like the corpses in the camps, he still had a fiery eye, as though, but for those two coals, the grate held ash. There's no easy way out of this life, and I do not look forward to the day they put those tubes up my nose, and a catheter shows my pee the way out like some well-trained servant. I saw how my father's body broke his spirit like a match; and I saw how my mother's broken spirit took her body under the way a ship sinks after being disemboweled by an errant berg of ice.
My father suffered thirty years of pain. A continent could call it a war. It was an unjust fate. It was undeserved. And my mother drank for nearly the same, although she beat my father to the grave by a good five, having decayed for a decade before they lowered her away - a leftover spoiling in the light. Fare thee well, I say, now that the words have no designation.
My father taught me how to be a failure. He taught me bigotry and bitterness. I never acquired his courage, because I caught a case of cowardice from my mother - soft as cotton - and I was born with her desperate orality, her slow insistent cruelty - like quicksand - her engulfing love.
My mother drank to fill her life with the warmth which had long ago leaked out of it; and my father hurt like hell because his mother had, because he had inherited the wrong proclivities, his arthrities an arch between two sagging generations.
My mother drank to let down her guard and allow her dreams to flood her like the cheap enamel basin they would later furnish her to puke in; while the aspirin my father fed on put a hole in his stomach like the one I have, having inherited the wrong proclivities, too - passivity like pavement over a storm.
My mother drank because, at menopause, she missed the turn and struck a wall, her hormones went out of balance like the weights of a clock, and she couldn't tell time anymore; while my father held two jobs, one at his architect's office and another at the store, because the Depression practically wiped out his practice, and Feeney's, also desperate, took him in at a family rate to let two others starve, and changed its name at the same time to FEENEY'S FAMILY FURNITURE, not so much to honor my father's presence as to justify the junk the store now stocked; and there he worked long heartless hours, a foot backward in its shoe, filling the blank side of unused bills of sale with plans for gingerbread houses, garages too grand for their cars, gas stations designed as castles, banks like forts, stores in the cute shape of their specialty (often shoes), bars which were made entirely of glass brick, churches which were all spire, and little neighborhoods which were nothing but wall; then, as the world began to recover, my father's wasted efforts having bled his strength, he began to decline, and soon couldn't draw anymore, and soon couldn't sell sofas either, only sit in them, until they became too low and soft and mortal for him, his cane like a tree towering over him, his strength only in the grit of his jaws, in a mean streak now grown green and brave.
My mother had no steel. All puff - though sensitive - she was a cotton wad, and powdered her nose instead of washing it, and painted her nails instead of cleaning and cutting them, though when her hand shook, color crossed the cuticle, and sometimes the tips of her fingers were red. So she drank to the point of suicide, because a life which not only lacked love, but couldn't even catch a little indifference, like a net to contain air, was intolerable, because she hadn't a single god, or goddamned thing to do, or anything she could look back on as done - completed or accomplished - only one pleasureless screw which produced an ingrate and a monster upon which she nevertheless pinned her hopes with exactly the same chance for success as anyone would who tried to drive a nail into a passing cloud - a son to whom she threw her soul and considerable peril, like a stone into a paper boat"
(The tunnel, William H Gass)
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Teorema Dixie Kong de relativismo interpretativo
No clássico Donkey Kong
Country 2, os desenvolvedores do jogo encararam o desafio de fazer uma
sequência para um sucesso estrondoso como o do jogo original seguindo o caminho
da dificuldade aumentada: o que o primeiro jogo tinha de difícil-só-às-vezes o
segundo tinha de crueldade quase constante. Para dar uma variada na
jogabilidade quase idêntica (joguinho de plataforma estilo Mario em seu auge,
naquela época), trocaram o personagem-protagonista, Donkey Kong, por uma
macaquinha, Dixie Kong, talvez a primeira protagonista feminina em jogo de
plataforma tradicional graúdo da Nintendo (Metroid não conta) desde a princesa
peach naquele Mario 2 malucão.
O Dixie Kong tinha uma
característica especial: ao pular, poderia flutuar um tempinho antes de cair se
o jogador segurasse o botão do pulo. Em um jogo com vários buracos-sem-fundo a
serem evitados para conseguir se chegar até o fim das fases, trata-se de algo
próximo de um super-poder: ao conseguir a personagem, imediatamente troca-se
para ela, a não ser que o jogador prefira economizar esta capacidade para
momentos ainda mais difíceis, ficando com o personagem mais fraco só para que ele
poder morrer primeiro.
Dilema discussão-de-gêneros: como
entender este super-poder? A Dixie sendo melhor do que o personagem masculino
de imediato aponta para um empoderamento num esquema girl-power, we can do it
(mulher mostrando o muque), a preterição um caso raro se tratando de algo fora
do espectro tido como feminino (cuidar de casa, doente, neném, etc) de
atividades. Mas se pensarmos no esquema identificativo que existe em personagens de videogames
(brasileiros de início se revoltam com o Blanka sendo daquele jeito, faz-se
pesquisas sobre World of Warcraft perguntando a jogadores homens que jogam com
personagens femininas o porquê deles fazerem isto, etc), é possível pensar que
a personagem feminina sendo mais forte existe para que as garotinhas que fossem
jogar o jogo e automaticamente escolher a macaquinha (olha o cabelo dela!)
teriam menos dificuldade na hora de
enfrentar os desafios do jogo. Neste caso, seriam os desenvolvedores colocando
a habilidade das jogadoras abaixo da dos jogadores, dando a elas uma ajudinha.
E aí, o jogo é feminista (girl
power!) ou machista (“vamos facilitar para as meninas...”)?
Podemos ainda colocar mais duas
possibilidades: pode ser uma homenagem ao Mario 2, do NES, em que a princesa
peach tinha poder semelhante, ou os desenvolvedores do jogo decidindo depois de
desenhar todas as fases que a dificuldade do jogo precisava de uma atenuada e
que a personagem nova poderia comportar mais facilmente poderes novos do que o
personagem que já aparecia (sem este poder agora tão necessário) no jogo
antigo. Seria esse poder um aceno para o histórico dos jogos da Nintendo ou uma
questão técnica de design de jogos?
É possível pedir uma resposta aos
desenvolvedores de jogos, mas aí a pessoa que faz isto esquece de que nossos
atos não se resumem à nossas intenções (demorei pra sacar que intentional
fallacy tinha cabimento para bem mais do que só literatura). O ato, realizado,
está livre para ser interpretado, com o limite apenas (ainda assim frequentemente ignorado)
de se prestar atenção às especificidades do ato.
Qual desses quatro caminhos interpretativos escolher?
Se a pessoa passou a infância
jogando Super Nintendo e tem enorme carinho pelo hobby e hoje anda por esses
círculos que discutem gênero, vai adotar a interpretação Girl Power, querendo
defender um pouco os videogames dos ataques de lixo-cultural que até hoje
resistem em parte do discurso sobre eles.
Se o desejo é de se transmitir a imagem de uma pessoa extremamente crítica, extremamente exigente, extremamente incisiva
e dura, vai falar que o poder da Dixie Kong é machista, subestimando meninas,
dando a elas a ideia que tudo na vida que vale a pena ser conquistado será
conquistado pelo que ela tem de feminino (o poder de flutuar funciona num
esquema pigtail-helipcoter, isto é, o cabelinho bacaninha dela que é o poder),
etc etc.
Se a pessoa quer pagar de erudito
dos videogames (hahahahaha), vai falar que é homenagem ao Mario 2. Se quer
pagar de interessado-no-lado-técnico, o-importante-é-o-design-e-jogabilidade,
vai falar que o poder é uma necessidade do jogo e que tentar decantar sentido
disso é não entender que jogos são sistemas de interação e desafio etc etc
sábado, 29 de março de 2014
Postagens do facebook
Vai que some de lá. Mais difícil sumir de lá e sumir daqui também.
Parece automático agora para maioria das pessoas ir ao aeroporto e ser acometido pela preocupação patriótico-cidadã de nãovaidartempo, imaginanacopa, etc. Já eu acho que se desse tudo certo na copa (hahahahahaha) e o país desse uma boa impressão para estrangeiros seria como ir visitar uma família em que o pai espanca todos os dias os filhos e a esposa exceto no dia de visita e tá lá todo mundo bonitinho e sorrindo pros convidados.
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"Sou contra este governo que está aí. Quero a volta do governo que perseguia e torturava as pessoas que eram contra o governo!". E esse povo, todos os seis, doze, trinta infelizes que conseguem reunir nas capitais do país, ainda vira notícia.
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Dica: não escolham para mestrado um assunto que está quase fazendo aniversário. Depois da defesa, você tendo ânsia só de ouvir palavras-chaves aparentadas do assunto, noticiários e papos zeitgeistianos ficam ainda mais chatos de aturar.
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Uns meses atrás queriam tirar a palavra "crazy" para falar negativamente de mulheres. Desmerece sentimentos, etc. Hoje querem tirar a palavra "bossy" (mandona). Vamos fundar um movimento de vanguarda e banir todas as palavras possivelmente negativas quando nos referirmos às mulheres?
(O que mais me espanta é o nível computador-usando-searchwords de entendimento de comunicação humana)
(O que mais me espanta é o nível computador-usando-searchwords de entendimento de comunicação humana)
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Trechos do Blood Meridian, relido por mim nesses dias:
"Eram terras remotas para novidades os lugares em que ele passava e naqueles tempos incertos homens brindavam a ascenção de regentes já depostos e saudavam a coroação de reis assassinados e em suas sepulturas"
"Em uma parte elevada da beira ocidental do lago seco eles passaram por uma cruz de madeira grosseira onde Maricopas haviam crucificado um Apache. O corpo mumificado dependurado na arvorecruz com sua boca escancarada em um buraco cru, uma coisa de couro e osso desengordurada pelos ventos pedra-pomes que saem do lago e a árvore pálida de suas costelas aparecendo pelos farrapos que se dependuravam de seu peito."
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Pedacinho do Revolutionary Road, do Yates
"And how could he ever tell April that these abysmally sentimental words had sent an instantaneous rush of blood to the walls of his throat? How could he ever explain, without bringing down her everlasting scorn, that for a minute he was afraid that he might weep into his melting chocolate ice cream?"
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A man in his life - Yehuda Amichai (tr. Chana Bloch & Stephen Mitchell)
A man doesn't have time in his life
to have time for everything.
He doesn't have seasons enough to have
a season for every purpose. Ecclesiastes
Was wrong about that.
A man needs to love and to hate at the same moment,
to laugh and cry with the same eyes,
with the same hands to throw stones and to gather them,
to make love in war and war in love.
And to hate and forgive and remember and forget,
to arrange and confuse, to eat and to digest
what history
takes years and years to do.
A man doesn't have time.
When he loses he seeks, when he finds
he forgets, when he forgets he loves, when he loves
he begins to forget.
And his soul is seasoned, his soul
is very professional.
Only his body remains forever
an amateur. It tries and it misses,
gets muddled, doesn't learn a thing,
drunk and blind in its pleasures
and its pains.
He will die as figs die in autumn,
Shriveled and full of himself and sweet,
the leaves growing dry on the ground,
the bare branches pointing to the place
where there's time for everything.
to have time for everything.
He doesn't have seasons enough to have
a season for every purpose. Ecclesiastes
Was wrong about that.
A man needs to love and to hate at the same moment,
to laugh and cry with the same eyes,
with the same hands to throw stones and to gather them,
to make love in war and war in love.
And to hate and forgive and remember and forget,
to arrange and confuse, to eat and to digest
what history
takes years and years to do.
A man doesn't have time.
When he loses he seeks, when he finds
he forgets, when he forgets he loves, when he loves
he begins to forget.
And his soul is seasoned, his soul
is very professional.
Only his body remains forever
an amateur. It tries and it misses,
gets muddled, doesn't learn a thing,
drunk and blind in its pleasures
and its pains.
He will die as figs die in autumn,
Shriveled and full of himself and sweet,
the leaves growing dry on the ground,
the bare branches pointing to the place
where there's time for everything.
Início de conto do Richard Yates
Ótimo escritor, este Richard Yates. Merece mesmo ser desenterrado do esquecimento. Aqui um parárafo de abertura de conto que achei bom o bastante para querer traduzir (acho que um pouco do estilo límpido e lírico se perdeu no caminho, mas não sei bem apontar onde):
"Por um curto período quando
Walter Henderson tinha nove anos de idade ele pensou que cair morto era o
verdadeiro zênite do romântico, e também pensavam isto uma porção de seus
amigos. Achando que a única parte verdadeiramente recompensadora de qualquer
brincadeira de polícia-e-bandido era o momento em que você fingia ser atingido,
agarrava o coração, derrubava a pistola e despencava na terra, eles logo
dispensaram com o resto do jogo – o afazer trabalhoso de escolher lados e sair
andando de fininho – e refinaram o jogo até sua essência. Tornou-se uma questão
de performance individual, quase uma arte. Um deles de cada vez corria
dramaticamente pela crista de um morro, e em certo ponto a emboscada ocorria:
uma sacudida simultânea de pistolas de brinquedo apontadas e um coro daqueles
sons guturais em staccato – uma espécie de sussurro rouco “Pou! Pou!” – com o
qual garotinhos simulam o barulho de tiroteio. Então o performer se interrompia,
virava, pairava por um momento em agonia elegante, despencava e caia morro
abaixo em um girar de braços e pernas e uma nuvem esplêndida de poeira, e
finalmente se esparramava achatado no fim, um cadáver amarrotado. Quando ele se
levantava e batia nas roupas os outros criticariam sua forma (“muito bom” ou
“muito duro” ou “não pareceu natural”), e então seria a vez do próximo jogador.
Era isto tudo que havia no jogo, mas Walter Henderson adorava aquilo. Ele era
um garoto pequeno, mal coordenado, e esta era a única coisa minimamente
parecida com um esporte na qual ele se distinguia. Ninguém poderia se equiparar
à forma que ele se entregava na hora de arremessar o próprio corpo flácido
morro abaixo, e ele se deleitava na pequenina aclamação que aquilo lhe
garantia. Com o tempo outros se cansaram do jogo, depois de alguns garotos mais
velhos rirem deles; Walter relutantemente se dirigiu a formas mais saudáveis de
brincadeira, e pouco tempo depois ele tinha esquecido daquilo."
quarta-feira, 5 de março de 2014
Mais Delillo traduzido
Aqui uma outra parte do Falling man. É a parte final, mas só dá pra chamar de spoiler pra quem não viveu ou viu o evento de quase treze anos atrás. É outra parte que me impressionou muito, mas relendo (de novo) agora, o impacto não foi tão forte quanto da releitura da parte que postei primeiro. Como eu já fiz, e não recebi notícia de infração de direitos autorais (apesar de provavelmente ser) pela outra postagem, aqui vai minha traduçãozinha:
---
A aeronave estava sob controle agora e ele sentou no banco
retrátil do outro lado da parte em que se guarda a comida, vigiando. Era para
ele ou manter vigília ali, fora da cabine do piloto, ou patrulhar o corredor,
estilete em mãos. Ele
não estava confuso, apenas recuperando o fôlego, aguardando um momento. Isto
foi quando ele sentiu uma coisa na parte superior do braço, a dor aguda de uma
incisão em sua pele.
Ele sentou virado para a divisória, com o banheiro atrás de
si, exclusivo à primeira classe.
O ar estava espesso com o spray de pimenta que ele tinha
usasdo e havia o sangue de alguém, o sangue dele, drenando pelo punho de sua
camisa de manga comprida. Era o sangue dele. Ele não procurou a fonte da ferida
mas viu mais sangue começando a aparecer pela manga subindo pelo ombro. Ele
pensou que talvez a dor estivesse ali antes mas ele estava só agora se
lembrando de senti-la. Ele não sabia onde estava o estilete.
Se outras coisas estavam normais, em seu entendimento do
plano, a aeronave estava direcionada para o corredor do rio Hudson. Esta foi a
frase que ele ouviu de Amir várias vezes. Não havia janela que ele poderia
olhar sem sair do assento e ele não sentiu necessidade de fazer isto.
Ele estava com seu celular na função vibrar.
Tudo estava parado. Não havia sensação de voo. Ele ouvia
barulho mas sentia nenhum movimento e o barulho era o tipo que se sobrepõe a
tudo e parecia completamente natural, todos os motores e sistemas que se
transformam no ar em si.
Esqueça o mundo. Torne-se desatento da coisa chamada mundo.
Todo o tempo perdido da vida acabou agora.
Este é seu longo desejo, morrer com seus irmãos.
Sua
respiração vinha rapidamente. Seus olhos queimavam. Quando ele olhou
para a esquerda, em parte, ele poderia ver um assento vazio na cabine de
primeira classe, no corredor. Mais adiante, a divisória. Mas havia uma vista,
havia uma cena de imaginação clara lá pelo fundo de sua cabeça.
Ele não sabia como tinha se cortado. Ele tinha sido cortado
por um de seus irmãos, de que outra maneira, acidentalmente, na disputa, e ele
deu boas vindas ao sangue mas não à dor, que estava se tornando difícil de
suportar. Então ele pensou em algo que ele tinha há muito esquecido. Ele pensou
nos garotos Shia no campo de batalha em Shatt AL Arab. Ele os viu
saindo das trincheiras e redutos e correndo atravessando os lodaçais na direção
das posições inimigas, ocas abertas em gritos mortais. Ele tirou força disto,
vendo os garotos sendo abatidos em ondas por metralhadoras, garotos em
centenas, e então milhares, brigadas suicidas, usando bandanas vermelhas ao
redor de seus pescoços e chaves de plástico embaixo, para abrir a porta do
paraíso.
Recite as palavras sagradas.
Puxe suas roupas apertadamente em si próprio.
Fixe o olhar.
Carregue sua alma em sua mão.
Ele acreditava que poderia ver direto dentro das torres
ainda que suas costas estivessem para elas. Ele não sabia a localização da
aeronave mas acreditava que conseguia ver pela parte de trás da cabeça e
através do aço e alumínio da aeronave e para dentro das longas silhuetas, os
contornos, as formas, as figuras se aproximando, as coisas materiais.
Os ancenstrais pios tinham puxado suas roupas apertadamente
em si próprios antes da batalha. Eles eram aqueles que nomearam o caminho. Como
poderia qualquer morte ser melhor.
Cada pecado de sua vida é perdoado nos segundos que chegavam.
Não há nada entre você e vida eterna nos segundos que chegavam.
Você está desejando a morte e agora está aqui nos segundos
que chegavam.
Ele começou a vibrar. Ele não tinha certeza se era o mover
do avião ou ele mesmo. Ele balançava no assento, dolorido. Ele ouviu sons de
algum lugar na cabine. A dor estava pior agora. Ele ouviu vozes, gritos
excitados da cabine ou do cockpit, ele não tinha certeza. Alguma coisa caiu da
bancada na galera.
Ele apertou seu cinto de segurança.
A garrafa caiu da bancada na galera, no outro lado do
corredor, e assistiu a ela rolar para este lado e para o outro, uma garrafa
d’água, vazia, fazendo um arco em uma direção e rolando de volta no outro, e
ele assistu a ela girar mais rápido e escorregar pelo chão um instante antes do
avião acertar a torre, calor, depois combustível, depois fogo, e uma onda de
explosão passou pela estrutura que mandou Keith Neudecker para fora de sua
cadeira e para uma parede. Ele se viu andando para dentro de uma parede. Ele
não derrubou o telefone até ele acertar a parede. O chão começou a deslizar
embaixo dele e ele perdeu seu equilíbrio e escorregando pela parede até o chão.
Ele viu a cadeira quicar pelo corredor em câmera lenta. Ele
pensou que viu o teto começar a ondular, erguer e ondular. Ele botou seus
braços por cima de sua cabeça e sentou joelhos pra cima, rosto enfiado entre
eles. Ele estava ciente de vasto movimento e outras coisas, menores, não
vistas, objetos deslizando e quicando, sons que não eram uma coisa ou outra mas
apenas som, uma alteração no arranjo básico de partes e elementos.
O movimento era abaixo dele e então por toda sua volta,
imenso, algo inimaginável. Era
a torre guinando. Ele entendeu isto agora. A torre começou um longo
balançar para a esquerda e ele ergueu sua cabeça. Ele tirou a cabeça dos
joelhos para ouvir. Ele tentou ficar completamente parado e tentou respirar e
tentou ouvir. Lá depois da porta do escritório ele viu um homem com seus
joelhos na primeira onda pálida de fumaça e poeira, uma figura profundamente
concentrada, cabeça erguida, paletó desvestido pela metade, pendurado por um
ombro.
Em tempo a torre parou de se inclinar. A inclinação parecia
eterna e impossível e ele sentou e escutou e depois de um tempo a torre começou
a lentamente deslizar de volta. Ele não sabia onde estava o telefone mas ele
podia ouvir a voz do outro lado, ainda ali, em algum lugar. Ele viu o teto
começar a ondular. O fedor de algo familiar estava em toda parte mas ele não
sabia o que era.
Quando a torre finalmente balançou de volta para a vertical
ele se empurrou para fora do chão e moveu até a porta. O teto na parte distante
do hall gemeu e abriu. O estresse era audível e então ele abriu, objetos
caindo, painéis e paredes de gesso. Pó de gesso encheu a área e havia vozes pelo
hall. Ele perdia coisas na medida em que aconteciam. Ele sentia as coisas vindo
e saindo.
O homem ainda estava lá, ajoelhado na porta do escritório
oposto, pensando muito a respeito de alguma coisa, sangue aparecendo pela sua
camisa. Ele era um cliente ou um advogado de consultoria e Keith o conhecia
ligeiramente e eles trocaram um olhar. Impossível dizer o que significava, este
olhar. Havia pessoas chamando
nomes pelo hall. Ele tirou seu paletó da porta. Ele esticou a mão atrás
da porta e tirou o paletó do gancho, sem saber por que ele estava fazendo isso
mas não se sentindo idiota por fazê-lo, esquecendo-se de se sentir idiota.
Ele desceu pelo hall, vestindo o paletó. Havia pessoas se
movendo na direção das saídas, na outra direção, movendo, tossindo, ajudando
outros. Eles pisavam por cima de detritos, rostos mostrando urgência
resoluta. Este era o conhecimento em
todo rosto, a distância que eles tinham de cobrir até o nível da rua. Eles
falavam a ele, um ou dois, e ele balançava a cabeça de volta ou não. Eles
falavam e olhavam. Ele era o cara que achava que precisava do paletó, o cara
indo para a direção errada.
O fedor era combustível e ele conheceu isto agora, escorrendo
dos andares acima. Ele chegou ao escritório de Rumsey no final do hall. Ele tinha
que escalar para dentro do escritório. Ele escalou por cima de cadeiras e
livros atirados e um arquivo tombado. Ele viu moldura descoberta, barras de
treliça, onde estivera o teto. A caneca de café de Rumsey estava estilhaçada em
sua mão. Ele ainda segurava um fragmento da caneca, seu dedo passando pelo
anel.
Só que não parecia o Rumsey. Ele sentava em sua cadeira,
cabeça para o lado. Ele tinha sido atingido por alguma coisa grande e dura
quando o teto cedeu ou até antes, no primeiro espasmo. Seu rosto estava pressionado
contra o ombro, algum sangue, não muito.
Keith falou com ele.
Ele agachou ao lado e tomou seu braço e olhou para o homem,
falando com ele. Alguma coisa veio gotejando do canto da boca de Rumsey, feito
bile. Como que é bile? Ele viu a marca em sua cabeça, um entalhe, uma marca de
goiva, funda, expondo tecido cru e nervo.
O escritório era pequeno e improvisado, um cubículo enfiado
em um canto, com vista limitada para o céu da manhã. Ele sentiu os mortos ali
perto. Ele teve esta sensação, na poeira suspensa.
Ele assistiu ao homem respirar. Ele estava respirando. Ele parecia alguém
paralizado para o resto da vida, nascido assim, cabeça torcida em seu ombro,
vivendo numa cadeira noite e dia.
Havia fogo ali em cima em algum lugar, combustível queimando,
fumaça soprada para fora de um duto de ventilação, e então fumaça fora da
janela, rastejando prédio abaixo.
Ele desdobrou o dedo indicador de Rumsey e retirou a caneca
quebrada.
Ele se botou de pé e olhou para ele. Ele falou com ele. Ele
disse a ele que ele não poderia empurrá-lo pela cadeira, rodinhas ou não,
porque havia detritos por toda parte, ele falava rápido, detritos bloqueando
porta e o hall, falando rapidamente para que conseguisse pensar também assim.
Coisas começaram a cair, uma coisa e depois outra, coisas
sozinhas primeiro, descendo da abertura do teto, e ele tentou levantar Rumsey
de sua cadeira. E então algo lá fora, passando pela janela. Algo passou pela
janela, ele viu. Primeiro passou e não estava mais lá e então ele viu e teve
que ficar por um momento olhando para fora, para o nada, segurando Rumsey por
baixo do braço.
Ele não conseguia parar de ver aquilo, vinte pés de
distância, um instante de alguma coisa de lado, passando pela janela, camiseta
branca, mão erguida, caindo antes de ele conseguir ver. Detritos em cachos
vinham descendo agora. Havia ecos soando pelos andares e arames estalando
diante de seu rosto e pó branco por toda a parte. Ele permaneceu em pé, segurando Rumsey. A
partição de vidro estilhaçou. Algo desceu e houve um barulho e o vidro
arrepiou e quebrou e então a parede cedeu atrás dele.
Tomou algum tempo para que ele pudesse se empurrar para cima
e para fora. Seu rosto tinha a sensação de cem incêndios pontilhados em seu
rosto e era difícil respirar. Ele encontrou Rumsey na fumaça e poeira, rosto
pra baixo nos cascalhos e sangrando muito. Ele tentou erguê-lo e virá-lo e
percebeu que ele não conseguia usar sua mão esquerda mas conseguia virá-lo
parcialmente.
Ele queria erguê-lo até seu ombro, usando seu braço para
ajudar a guiar a parte superior do corpo enquanto ele agarrava pelo cinto com
sua mão direita e tentava apanhar e levantar.
Ele começou a levantar, seu rosto quente com o sangue na
camiseta de Rumsey, sangue e poeira. O homem pulou em sua mão. Havia um ruído em
sua garganda, abrupto, meio segundo, meio suspiro, e então sangue de algum
lugar, flutuando, e Keith virou para trás, mão ainda agarrando o cinto do
homem. Ele esperou, tentando
respirar. Ele olhou para Rumsey, que tinha caído para longe dele, parte
superior do corpo frouxa, rosto quase ausente. O negócio inteiro de ser Rumsey
estava em farrapos agora. Keith segurou apertando a fivela do cinto. Ele ficou
ali e olhou para ele e o homem abriu os olhos e morreu.
Foi então que ele se perguntou o que que estava acontecendo
aqui.
Papel voava pelo corredor, soando feito chocalhos em um
vento que parecia vir de cima.
Havia mortos, indistintamente vistos, nos escritórios em
ambos lados.
Ele escalou por cima de uma parede tombada e seguiu seu
caminho lentamente na direção das vozes.
No vão da escadaria, no quase escuro, uma mulher carregava
um pequeno triciclo apertado em seu peito, uma coisa para uma criança de três
anos, guidão emoldurando suas costelas.
Eles desciam andando, milhares, e ele estava lá com eles. Ele
andava em um longo sono, um degrau e depois o próximo.
Havia água correndo em algum lugar e vozes em uma distância
estranha, vindo de outro vão de escadaria ou de elevador, lá fora no escuro em
algum lugar.
Estava quente e tumultuado e a dor em seu rosto parecia
encolher sua cabeça. Ele pensou que seus olhos e boca afundavam para dentro de
sua pele.
As coisas voltavam a ele em visões nebulosas, como metade de
um globo ocular olhando fixamente. Estes
eram momentos que ele perdia na medida em que aconteciam e ele tinha que parar
de andar para que conseguisse parar de vê-los. Ele ficou olhando para o nada. A
mulher com o triciclo, ao seu lado, falou com ele, passando.
Ele sentiu o cheiro de algo terrível e entendeu que era ele,
coisas grudadas a sua pele, partículas de pó, fumaça, algum tipo de areia
oleosa em sua cara e mãos misturando com a poça corpórea, feito cola, com o
sangue e saliva e suor frio, era ele mesmo de que ele sentia o cheiro, e
Rumsey.
O tamanho daquilo, a pura dimensão física, e ele se viu
naquilo, a massa e escala, o jeito que a coisa balançava, o lento e fantasmal
inclinar.
Alguém tomou seu braço e o guiou para frente por alguns
degraus e então ele andou por si só, em seu sono, e por um instante ele viu de
novo, passando pela janela, e desta vez ele penseou que era Rumsey. Ele
confundiu aquilo com Rumsey, o homem caindo de lado, braço esticado e para
cima, como que apontado para cima, tipo por que estou aqui em vez de ali.
Ele tinha de esperar às vezes, longos momentos travados, e
ele olhava direto em sua frente. Quando a fila movia de novo ele andava um
degrau pra baixo e depois outro. Eles conversavam com ele várias vezes, pessoas
diferentes, e quando isto aconteceu ele fechava os olhos, talvez porque queria
dizer que ele não precisava responder.
Havia um homem no patamar adiante, velho, pequeno, sentado na sombra, joelhos erguidos,
descansando. Algumas pessoas falavam e ele balançava a cabeça ok, ele acenando
com a mão e balançando a cabeça
Havia um sapato de mulher ali perto, de ponta cabeça. Havia
uma pasta de lado e o homem tinha que se inclinar para alcançá-la. Ele estendeu
a mão e a empurrou com algum esforço na direção da fila que avançava.
Ele disse “eu não sei o que eu deveria fazer com isto. Ela
caiu e deixou ali”
Pessoas não escutavam isto ou não retinham isto ou não
queriam e moviam adiante, Keith moveu adiante, a fila começando a chegar a uma
área de alguma luz.
Não parecia eterno a ele, a passagem descendo. Ele não tinha
uma sensação de marcha ou ritmo. Havia uma listra de brilho na escada que ele
não tinha visto antes e alguém rezando lá atrás em algum lugar da fila, em
espanhol.
Um homem apareceu, movendo rapidamente, usando um capacete
de segurança, e eles abriram um espaço, e depois apareceram bombeiros, em
massa, e eles abriram um espaço.
Rumsey era o que estava na cadeira. Ele entedeu isto agora.
Eles tinham arrumado para ele descer com a cadeira e eles iam encontrá-lo e
trazê-lo para baixo, e outros.
Havia vozes em cima atrás de si, lá nas escadas, um e depois
outro em quase eco, vozes em fuga, vozes em canto nos ritmos de fala natural.
Isto aqui desce.
Isto aqui desce.
Vá passando para baixo.
Ele parou de novo, segunda vez ou terceira, e pessoas
empurravam ao redor dele e olhavam para ele e diziam para ele se mover. Uma
mulher tomou seu braço para ajudá-lo e ele não se moveu e ela continuou
Vá passando para baixo.
Isto aqui desce.
Isto aqui desce.
A pasta desceu dando a volta pelo vão da escada, mão a mão,
alguém deixou isto, alguém esqueceu isto, isto aqui desce, e ele ficou olhando
direto para frente quando a pasta chegou até ele, chegando a sua mão direita
pelo seu corpo para pegá-la, sem expressão, e começou a descer pela escada de
novo.
Havia longas esperas e outras não tão longas e no tempo que
eles eram guiados descendo ao nível térreo, embaixo do Plaza, eles se moveram
passando por lojas vazias, lojas trancadas, e eles estavam correndo agora,
alguns deles, com água despejando de algum lugar. Eles saíram na rua, olhando
para trás, ambas torres queimando, e logo eles ouviram um alto tremor
percussivo e viram fumaça descendo do topo de uma torre, crescendo para fora e para
baixo, metodicamente, andar por andar, a torre caindo, a torre sul mergulhando
para dentro da fumaça e eles estavam correndo de novo.
A explosão de vento mandou as pessoas para o chão. O trovoar
de fumaça e cinzas veio movendo na direção deles. A luz drenou os vivos para
longe, o dia claro desaparecido. Eles correram e caíram e tentaram se levantar,
homens de cabeças com toalhas, mulheres cegadas por detritos, uma mulher
chamando o nome de alguém. A única luz era agora vestigial, a luz daquilo que
vem depois, carregado no resíduo de matéria esmagada, nas ruínas de cinza
daquilo que era variado e humano, pairando no ar acima.
Ele deu um passo e depois o outro, fumaça soprando por cima
dele. Ele sentiu o cascalho nas suas solas, e havia movimentação por toda
parte, pessoas correndo, coisas passando voando. Ele caminhou diante da placa
de Easy Park, o Especial de Café da Manhã e o Three Suits Cheap, e eles
passaram correndo, perdendo sapatos e dinheiro. Ele viu uma mulher com a mão
erguida, como que correndo para pegar um ônibus.
Ele passou pela fileira de caminhões de bombeiro e eles
agora estavam vazios, faróis brilhando. Ele não conseguia se encontrar nas
coisas que via e escutava. Dois homens correram com uma maca, alguém com o
rosto pra baixo, fumaça vazando de seu cabelo e roupas. Ele assistiu a eles se
mover para a distância aturdida. Era lá onde tudo estava, ao redor dele,
despencando, placas de rua, pessoas, coisas que ele não conseguia nomear.
Então ele viu uma camisa descer do céu. Ele andou e olhou
ela caindo, braços acenando como nada nesta vida.
domingo, 2 de março de 2014
Rascunho de tradução do primeiro capítulo do Falling Man, do Don Delillo
Comprei o livro porque estava barato, uma cópia usada numa livraria quando fui lá pra nova iorque. Os da Egan e da Ozick que eu estava lendo estavam bem chatos (The keep e The cannibal galaxy, não recomendo nenhum dos dois; ótimas escritoras, mas que pelo visto nem sempre acertam), resolvi abrir a sacola de compras e dar uma lida no primeiro parágrafo. Essas páginas de abertura (e conclusão, traduzi também o fim, vou postar depois) estão entre as melhores que já li. Este post vai dedicado para quem acha que a literatura sempre perde nas tentativas de correr atrás da realidade.
---
PARTE UM
BILL LAWTON
1
Não era mais uma rua e sim um mundo, um tempo e espaço de
cinzas caindo e quase noite. Ele caminhava norte atravessando escombros e lama
e havia pessoas passando correndo segurando toalhas em seus rostos ou paletós por
cima de suas cabeças. Eles tinham lenços pressionados contra suas bocas. Eles
tinham sapatos em suas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão, passando
correndo por ele. Eles corriam e caiam, alguns deles, confusos e desajeitados,
com detritos caindo ao redor deles, e algumas pessoas tomavam abrigo embaixo de
carros.
O rugir estava ainda no ar, o estrondo despencante da queda.
Este era o mundo agora. Fumaça e cinzas vinham rolando rua abaixo e contornando
esquinas, rebentando pelas esquinas, marés sísmicas de fumaça, com papel de
escritório aparecendo e sumindo, folhas padrão com pontilhado de corte,
roçando, chicoteando, coisas de outro mundo na mortalha da manhã.
Ele vestia um terno e carregava uma pasta. Havia vidro em
seu cabelo e rosto, cápsulas marmoreadas de sangue e luz. Ele passou por uma
placa de Promoção de Café da Manhã e eles passaram correndo, policiais da
cidade e seguranças correndo, mãos pressionadas contra as coronhas para manter
as armas firmes.
As coisas dentro estavam distantes e imóveis, onde ele
deveria estar. Aconteceu por toda parte ao redor dele, um carro meio enterrado
em destroços, janelas esmagadas e barulhos saindo, vozes de rádio arranhando as
ruínas. Ele viu pessoas vertendo água enquanto corriam, roupas e corpos ensopados
por sistemas anti-incêndio. Havia sapatos descartados na rua, bolsas e laptops,
um homem sentado na calçada tossindo sangue. Copos de papel passavam quicando estranhamente.
O mundo era isto também, figuras em janelas trezentos metros
acima, caindo para dentro de espaço vazio, e o fedor de incêndio de
combustível, e o rasgar estável de sirenes no ar. O barulho estava em toda
parte em que corriam, som estratificado acumulando ao redor deles, e ele
caminhou para longe dele e para dentro dele ao mesmo tempo.
Havia outra coisa então, fora de tudo isto, não pertencendo a
isto, acima. Ele assitiu aquilo descer. Uma camisa desceu pra fora da fumaça
alta, uma camisa erguida e deslizante na luz escassa e então caindo denovo, pra
baixo em direção ao rio.
Eles correram e então eles pararam, alguns deles, parados
ali oscilando, tentando puxar fôlego do ar queimante, e os gritos espasmódicos
de incredulidade, xingamentos e berros perdidos, e o papel juntou-se no ar,
contratos, currículos sendo assoprados, nacos intactos de negócios, rápidos no
vento.
Ele continuou andando. Alguns que corriam haviam parado e
outros desviando para ruas secundárias. Alguns caminhavam de costas, olhando
para o cerne daquilo, todas aquelas vidas se contorcendo lá atrás, e coisas
continuavam caindo, objetos incendiados trilhando linhas de fogo.
Ele viu duas mulheres aos prantos em sua marcha reversa,
olhando através dele, em shorts de corrida, rostos em colapso.
Ele viu membros do grupo de taichi do parque ali próximo, em
pé com mãos estendidas aproximadamente na altura do peito, cotovelos dobrados,
como se tudo isto, eles inclusos, poderiam ser colocados em um estado de
suspensão.
Alguém saiu de um restaurante e tentou passar para ele uma
garrafa d’água. Era uma mulher usando uma máscara de poeira e um boné de
baseball e ela tirou a garrafa e girou a tampa e empurrou-a de novo para ele.
Ele desceu sua pasta ao chão para pegá-la, quase ciente de que ele não estava
usando seu braço direito, que ele teve que descer a pasta antes de poder pegar
a garrafa. Três vans da polícia chegaram desviando para dentro da rua e
correram para o centro da cidade, sirenes soando. Ele fechou seus olhos e
bebeu, sentindo a água passar para dentro de seu corpo levando poeira e fuligem
junto com ela. Ela estava olhando para ele. Ela disse uma coisa que ele não
escutou e devolveu a garrafa e pegou a pasta. Havia um resquício de gosto de
sangue no gole d’água.
Ele começou a andar de novo. Um carrinho de supermercado
estava erguido e vazio. Havia uma mulher atrás do carrinho, olhando pra ele,
com fita de isolamento policial enrolada ao redor de sua cara e face, fita
amarela pedindo distância que marca os limites de uma cena de crime. Os olhos
dela eram ondulações finas e brancas na máscara clara e ela apertava a barra do
carrinho e ficava ali em pé, olhando para dentro da fumaça.
Em tempo ele ouviu o som da segunda queda. Ele cruzou a
Canal Street e começou a ver coisas, de alguma maneira, diferentemente. As
coisas não pareciam carregadas nas formas normais, a rua de pedras, os prédios
de ferro fundido. Havia algo criticamente ausente das coisas ao redor dele.
Elas estavam inacabadas, seja lá o que isto queira dizer. Elas não eram vistas,
seja lá o que isto queira dizer, janelas de lojas, plataformas de carregamento,
paredes pintadas a spray. Talvez seja assim a aparência das coisas quando não
há ninguém para vê-las.
Ele ouviu o som da segunda queda, ou sentiu-a no ar trêmulo,
a torre norte caindo, o temor macio de vozes na distância. Era ele caindo, a torre
norte.
O céu estava mais claro aqui e ele conseguia respirar com
mais facilidade. Havia outros atrás dele, milhares, enchendo a distância média,
uma massa em quase formação, pessoas caminhando para fora da fumaça. Ele
continuou até ter de parar. Atingiu ele rapidamente, o conhecimento que ele não
podia ir adiante.
Ele tentou dizer a si mesmo que ele estava vivo mas a ideia
era obscura demais para se firmar. Não havia taxis ou trânsito de qualquer tipo
e então uma velha caminhonete apareceu, Electrical Contractor, Long Island
City, que encostou e o motorista se inclinou na direção da janela do lado do
passageiro e examinou o que viu, um homem escamado em cinzas, em matéria
pulverizada, e perguntou a ele para onde ele queria ir. Não foi até ele entrar
na caminhonete e fechar a porta que ele entendeu para onde ele estava indo todo
esse tempo.
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