segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Relendo: Crônica da Casa Assassinada

Acreditando que cheguei a um estágio minimamente aceitável no que diz respeito a amplitude da minha bagagem de leitura, sabendo mais ou menos delinear afinal o que é do meu gosto e o que não é (estranhamente para mim não foi algo tão espontâneo assim, tão fácil de discernir), e tendo finalmente terminado de escrever o meu romance, decidi por revisitar alguns dos livros que mais me impressionaram nessa minha vida de leituras. No afã de tentar não incorrer no erro de muitos escritores de início de carreira em ficar concentrado na obra de um ou outro autor obsessivamente e daí acabar produzindo cópias pouco convincentes, acabei diversificando minhas leituras de forma talvez exagerada: foram poucos autores os que li a obra completa, e poucos os livros que passaram por releitura. Pouco mais de uma dúzia, talvez; talvez teria sido mais produtivo conhecer menos autores para conhecer outros mais afundo. Daí a ideia de começar uma nova prática de leitura: dentre os três ou quatro livros que ficam se alternando entre a cabeceira da minha cama e o banco de trás do meu carro, sempre um que eu já tenha lido antes e esteja revisitando. Ver o que eu encontro de diferente, de novo, de detalhe despercebido.

(Claro que não tenho cumprido essa determinação à risca, mas o que vale é a intenção)

Comecei pelo Crônica da Casa Assassinada. Acabou por ser ao mesmo tempo frustrante e fascinante; se a ideia do projeto era ver coisas novas, ter uma percepção quem sabe diferente do livro, aquela coisa clássica de que “ah, minha leitura mudou, mas o texto continua o mesmo: na verdade quem mudou fui eu”. Crônica é exatamente como eu lembrava, incrível, transbordante, daqueles livros em que dá pra imaginar montando uma casinha em algum canto dentro de suas páginas e morar dentro dele por vários meses (ou invadindo algum dos quartos abandonados do edifício do livro, se preferirem a imagem do prédio em vez da do terreno). O que me surpreendeu primeiro foi a consistência da perfeição do livro: já é sacada velha a conversa de que o teste verdadeiro da qualidade de uma obra é abri-la na página noventa e nove e não na página inicial, que autores sempre tendem a dar um gás a mais no iniciozinho (como é compreensível) e tendem a ir perdendo a força quando o começo fica excessivamente bom.

(aliás, deixa eu ir lá na página noventa e nove do manuscrito do meu livro pra ver se tá um lixo)

Enfim, aqui o primeiro parágrafo e um pouquinho do segundo:
“1. Diário de André (conclusão) - (...meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará meus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas...
Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis. Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos [...]”

Crônica nunca perde a força, mesmo partindo de um dos melhores inícios de livro que eu já vi. É inclusive uma das críticas que a galera da verossimilhança estrita mais faz ao livro, de que ele é excessivamente consistente, de que todo mundo fala no mesmo estilo incrível, do garoto de dezesseis anos que usa adjetivos como “insofismável” à empregada da casa (que na verdade um detalhe depois revela, e torço que eu não esteja lembrando errado aqui, que ela na verdade é britânica e que veio dar aulas de inglês a Timóteo, inclusive com literatura inglesa; o molde-estereótipo de criada então não é cabível a Betty) que escreve coisas como ( ao descrever a beleza terrível de Nina):

“ainda hoje, passado tanto tempo, não creio que tenha acontecido outra coisa que me impressionasse mais do que esse primeiro encontro. Não havia apenas graça, sutileza, generosidade em sua aparição: havia majestade. Não havia apenas beleza, mas toda uma atmosfera concentrada e violenta de sedução. Ela surgia como se não permitisse a existência do mundo senão sob a aura do seu fascínio – não era uma força de encanto, mas de magia. Mais tarde, à medida que se degradou, fui acompanhando em seu rosto os traços do desastre, e posso dizer que nunca houve vulgaridade nem rebaixamento na nobreza de seus traços. Houve uma metamorfose, uma substituição talvez, mas o que era essencial ficou e, morta, sob seu triste lençol de renegada, ainda pude descobrir o esplendor que vi naquele dia, flutuando, insone e sem guarida, como a luz da lua sobre os restos de um naufrágio”.

(puta que o pariu, hein?)

O que torna o feito particularmente espantoso é que o romance inteiro finca com os dois pés sua existência na estética do exagero, do desabrido, do vou-cortar-os-pulsos-pra-escrever-poesia-com-meu-sangue. Eu tenho realmente uma queda natural por esse tipo de expressão (Lobo Antunes, Foster Wallace, William Gass, parte grande do Sérgio Sant’Anna, e, paradoxalmente misturado com estoicismo e dureza, Cormac McCarthy) e minha escrita acaba caindo para esse lado também com alguma frequência. O risco envolvido é grande. Se um autor opta por uma estética do menos, da contenção, o erro que ele comete faz com que a obra caia no nada, surta efeito nenhum. Uns anos atrás fui ler o Raymond Carver, empolgado para conhecer a obra que dizem que praticamente ditou como se escrevia conto nos anos oitenta nos Estados Unidos, e achei o livro apenas legal. “Legal” não é uma marca acessível para a estética do desabrido: não tem quem ache o Foster Wallace ou o Lobo Antunes ou o William Gass “bons”: ou você acha incrível ou acha um lixo. Não existe o dar-de-ombros ao final da leitura desses livros; muito mais fácil é o abandono seguido de um tweet perguntando com inevitável superioridade o que é que vocês afinal enxergam nesse(s) cara(s), affe. (Porque, claro, nunca é uma questão de gosto pessoal, e sim lamentável falta de discernimento dos outros).

(Não colocando os autores dessa listinha como se fossem perfeitamente intercambiáveis: é óbvio que é possível gostar de Crônica da Casa Assassinada e achar William Gass uma bosta, e nem desqualificando quem não aprecie qualquer um desses; é quase sempre um desperdício de esforço e tempo criticar o gosto dos outros, pra qualquer lado que for)

Voltando ao delineamento da dicotomia: se a estética do contido corre o risco da ineficácia e do vazio, a estética do desabrido por sua vez corre um risco a meu ver bem mais terrível, o do ridículo. De o texto pedir aquele pacto de alma completo e eterno e explícito e o leitor rir, ou preferir ser menos cruel e apenas falar “calma, cara, senta aí e toma uma água”. Um texto da contenção pode passar por várias páginas calmas na montagem de um efeito posterior, enquanto o desabrido precisa a todo tempo se provar esteticamente como legítimo, o volume sempre posto ao máximo. Para além do risco do ridículo, o risco do cansaço espreita a cada virada de página. Claro, os livros dessa estética tendem a ser longos, como que naturalmente longos demais. Ideários de elegância e bom gosto não combinam com esses projetos artísticos: o ímpeto deve ser forte o suficiente para não cair no abismo do ruim, que parece ser mais fundo ou mais escorregadio do que o dos colegas que apostam no outro lado.

(O próprio Foster Wallace parece ter desejado passar do lado exagerado para o contido, o que de certa forma não é de todo arbitrário se pensarmos dentro do panorama filosófico composto em sua obra: se o Pale King era o livro-irmão e livro-oposto de Infinite Jest, o livro sobre o tédio se contrapondo ao livro sobre o entretenimento, até que existe um sentido interno que ele siga por outro percurso. Mesmo assim ao ler o que ele tinha escrito ainda fica a impressão estranha de ver uma águia decidir ir de uma montanha a outra andando em vez de usar as asas)

Talvez forte não seja o adjetivo correto, uma vez que não é falta de vontade ou empolgação que faz com que uma obra fracasse: o poeta que escreve com seu sangue não fracassa por não ter sangrado o bastante, não ter cortado fundo o suficiente. Afinal, é na juventude que a inexperiência diante do mundo e do existir funciona como um catalisador de todas as emoções e quase nunca é na juventude que um autor constrói suas melhores obras. É mais fácil que o fracasso seja na falta de técnica do rapaz na hora de lidar com a caneta tinteiro cheia de sangue ressecado por dentro, ou ver que o papel reage bem diferente do que quando se escreve com esferográfica. Não faltava sentimento ao jovem Lúcio Cardoso, faltava apenas técnica, que infelizmente não há outra forma de ela aparecer salvo pelo talento nato (raríssimo) ou pela insistência.

E talvez seja essa barreira gigantesca existente na estética do desabrido que tenha provocado tanto espanto aos leitores da obra anterior de Lúcio Cardoso o aparecimento de um livro como o Crônica: é unânime a afirmação de que lendo seus livros anteriores ninguém esperava por algo da excelência do Crônica. Até mesmo o próprio autor ecoa o sentimento, dizendo que era seu primeiro livro de verdade (para depois ter um derrame e não conseguir escrever mais nada).

Nas quinhentas páginas do livro, devem ter somado menos de meia dúzia as frases que fizeram com que eu torcesse o nariz e pensasse “menas, cara, menas”. Infelizmente uma logo na cena de André no enterro de Nina, mas enfim, era mesmo impossível manter o crescendo no trágico depois da invectiva dele contra Deus da última vez que ele tinha falado, após fazer sexo com Nina (o corpo quase desfeito por sua doença):

“De todos os lados, como um rio invisível que fosse crescendo, e esbatesse suas ondas de fúria contra os limites opostos que representávamos, o sentimento do fracasso se interpunha entre nós; passo a passo fui recuando, recuando, até o fundo da parede, como se deixasse espaço para que aquele mar fervesse, e subisse até nossos peitos impotentes, e nos atordoasse com seu cheiro de sal e de sacrifício. Rapidamente o mundo recompunha-se no seu mutismo. Pela primeira vez então, ergui o punho contra o céu: ah, que Deus, se existisse, levasse a melhor parte, e dela arrancasse seu sopro naquele minuto mesmo, e estabelecesse sua lei de opressão e tirania. Que até nos diluísse em matéria de nojo, e vivos, para maior divertimento seu, exibisse o atestado de nossa podridão e de nossa essência de lágrimas e de fezes – nada mais me importava. Literalmente anda mais e importava. Um vácuo fez-se em mim, tão duro como se fosse de pedra. Senti-me sorvendo o ar, caminhando, existindo, como se a matéria que me constituísse houvesse repentinamente se oxidado. E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, pois inventou também ao mesmo tempo a ânsia inútil, o furor do escravo, e a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão”

Mas a releitura serviu para uma coisa facilmente apontável, para além do prazer imenso de revisitar esse texto e todas as abstrações estéticas rapidamente rabiscadas aí em cima: reconstruir a impressão que eu tinha tido do final do livro, por sugestão da Ludimila. A confissão que Ana faz ao padre no final do livro, uma revelação meio absurda que meio que desfaz a questão do incesto no livro, pode muito bem ser invenção dela, em meio ao desespero e demência. Não descartando de todo a possibilidade de realmente ser o catolicismo do autor falando mais alto e ele tentando ter prova documental para expiar sua culpa de pecador contumaz diante de São Pedro quando morresse, mas a possibilidade de ser loucura  de uma Ana idosa e desdentada, querendo tomar para si o espaço de protagonista de uma ação extraordinária (suas últimas palavras transcritas no livro são, afinal, “Padre, e eu, não estou salva também, não pequei como os outros, não existi?”).

Não faz muito sentido na estética de mergulho profundo de subjetividade um segredo como esse ser real: quase equivale ao livro de detetive que revela que o assassino na verdade é o detetive-narrador. Desmonta imensamente a dramaticidade do livro (que mesmo assim resiste, claro, pelo poder do texto), uma nota dissonante justo em um romance que espanta pela sua consistência. Reconheço que talvez seja influência da história que ouvi recentemente que é quase dado por certo que foi demência que motivou Salieri a confessar seu suposto assassinato de Mozart, ou talvez seja que eu realmente prefira que não tenha essa conversa de final surpresa de troca de bebês.  Caso eu esteja errado, que o livro fique como atestado de que não existe final ruim o suficiente que arruíne um livro verdadeiramente extraordinário, se ele se mantiver grande até a beira do final. A não ser, claro, que seja algo ainda pior do que surpresa num esquema telenovela.

domingo, 19 de julho de 2015

Sobre a tal "literatura feminina"

Ah, como é encantadora a literatura feminina, com sua sensibilidade, sua delicadeza, sua ternura, sua doçura...

Em homenagem às mulheres, que são tão importantes na vida de nós homens, um trechinho que sublinhei nas minhas leituras dos últimos meses:

“Ela olhou para trás e viu que o touro, de cabeça baixa, corria em sua direção. Ela permaneceu perfeitamente parada, não por medo, mas por uma descrença que a congelara. Ela olhou o traço negro e violento avançando em sua direção como se ela não tivesse nenhum senso de distância, como se ela não pudesse decidir de imediato qual era sua intenção, e o touro enterrou sua cabeça em seu colo, feito um amante atormentado e selvagem, antes que sua expressão mudasse. Um de seus chifres afundou até perfurar seu coração e o outro se curvou ao redor de seu lado e a segurou em um aperto inquebrável. Ela continuou a olhar direto para frente mas a cena inteira diante dela havia mudado – a linha de árvores era uma ferida escura em um mundo que não era nada além de céu – e ela tinha a aparência de uma pessoa cuja visão tinha sido subitamente restaurada mas que acha a luz insuportável.” 
(Flannery O'Connor)

 e

“Só depois de acusá-lo do crime de silêncio que Babel descobriu quantos silêncios existem. Quando ele ouvia música ele não escutava mais às notas, mas aos silêncios do meio. Quando ele lia um livro ele se entregava por inteiro às vírgulas e aos ponto-e-vírgulas, ao espaço depois do ponto e antes da letra maiúscula da próxima frase. Ele descobria os espaços em uma sala onde o silêncio ajuntava; as dobras dos tecidos das cortinas, as tigelas fundas da prataria da família. Quando pessoas falavam com ele, ele escutava menos e menos do que eles não eram. Ele aprendeu a decifrar o sentido de certos silêncios, o que é como resolver um caso difícil sem pistas, não apenas intuição. E ninguém porderia acusá-lo em não ser prolífico em seu métier escolhido. Diariamente, ele produzia épicos inteiros de silêncio. No começo foi difícil. Imagine o fardo de se manter em silêncio quando sua criança pergunta se Deus existe, ou a mulher que você ama pergunta se você a ama de volta. No início, Babel ansiava pelo uso de apenas duas palavras: Sim e Não. Mas ele sabia que apenas proferir uma única palavra seria destruir a delicada fluência do silêncio.
Mesmo depois de eles terem prendido ele e queimado todos seus manuscritos, que eram todos páginas em branco, ele se recusava a falar. Nem menos um gemido quando eles deram nele uma pancada na cabeça, um pontapé de bota na virilha. Apenas no último momento possível, quando ele estava frente ao pelotão de fuzilamento, que o escritor Babel subitamente percebeu a possibilidade de seu erro. Enquanto os rifles eram apontados ao seu peito ele se perguntou se o que ele tomou pela riqueza do silêncio era na verdade a pobreza de nunca ser escutado. Ele tinha pensado que as possibilidades do silêncio humano não tinham fim. Mas quando as balas rugiram dos rifles, seu corpo foi crivado de verdade. E uma pequena parte dele riu amargamente porque, de qualquer maneira, como que ele poderia ter esquecido o que ele sempre soube: Não há nada que se iguale ao silêncio de Deus.”
(Nicole Krauss)

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(as duas traduções são de minha autoria)
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Agora vamos desligar o sarcasmo (via das dúvidas é melhor avisar) para tratar de algumas obviedades. Por que existe a expressão "literatura feminina" se ninguém fala em "literatura masculina"? O que haveria de "feminino intrínseco" nos trechos acima? A resposta que seria uma temática não satisfaz: existe, talvez, uma tendência geral de escritoras de tratarem de certos temas, assim como existiria de homens tratarem de outros; mas a literatura de interesse real não seria aquela que supera tendências, ou as toma como desimportantes? Não foi espanto e interesse o que causou o Knausgaard ao falar de paternidade quando criar filhos era tido como um assunto para mulheres? É difícil não entender como uma limitação a ideia de que mulheres escrevem sobre "o mundo feminino" enquanto os homens escrevem sobre todos os outros temas.

Talvez não exista mesmo um leitor que vá desconsiderar por completo o gênero do autor ou autora na hora de apreciar um livro, mas acho mais interessante que se tome o cuidado para isso não passar de um detalhe, ou mesmo uma opção em vez de uma obrigatoriedade: falar que toda a brutalidade dos contos da Flannery O'Connor vem de uma pessoa com útero pode ter a mesma relevância baixa como se fala que vem de uma pessoa que criava galinhas na infância e ensinou uma delas a andar pra trás. Associá-la a outras obras pelo conteúdo de sua escrita, a religiosidade desgraçada, a descrença na capacidade do ser humano se superar seus impulsos mais estúpidos e mesquinhos, e não pela caixinha que ela fazia x quando preenchia formulários, é uma postura que me parece mais produtiva e mesmo respeitosa à artista. 


(não foi o caso na hora do lançamento mais recente dos contos dela no Brasil, colocados em uma série "mulheres modernistas". A decisão provavelmente se justifica do ponto de vista comercial - bem mais grave é o fato do livro ainda não ter sido reeditado depois do fim da Cosac)

É de fato negativo que a maioria tão grande das pessoas que escreve (ou das que são publicadas) é masculina, pelo mesmo motivo que é negativo que a maioria seja sempre masculina em quase todos ofícios tidos como importantes: para além da injustiça com parte enorme da população que não recebe as mesmas oportunidades, há também o desperdício imenso de talento não é desenvolvido por falta de incentivo.

No entanto, se o incentivo chegar a um exagero de descaracterização num esforço que se completa no quesito compensatório ("precisamos de mais mulheres escrevendo"), corre-se o risco de forçar uma distorção que pode acabar deixando de lado o mais fundamental: a qualidade do resultado. Tomar o "lugar de fala" como critério primeiro debanda para essa crueldade que faz de um livro ruim ou bom ser igualmente um "livro feminino", do qual precisaríamos mais, dando aplausos pela iniciativa do ponto de vista social em vez de qualquer decisão que a pessoa tenha tomado como artista. Imagino que poucas artistas vão ter interesse em manter a discussão de suas obras nesse nível superficial.

Ainda que seja uma verdade inquestionável que o cânone literário (assim como de todas as outras áreas, convenhamos) seja composto quase só de homens (e brancos), eram igualmente homens e brancos muitos outros dos que tentaram e fracassaram; a seleção, portanto, diferente de simplificações que ocasionalmente encontramos por aí, não é mero exercício de hegemonia de gênero ou raça, ainda que tenha sido um fator atuante, e não apenas na hierarquização das obras prontas, e sim de efetivamente não publicar manuscritos, ou mesmo de fazer pouco (com grosseria ainda maior do que a habitual) das inciativas artísticas de alguém que está começando, quando essa pessoa é uma mulher.

Existe um problema real do que pode ser chamado de "imagem genérica de genialidade": o que é apresentado vindo de outros contextos é muito facilmente posto de lado em favor de outros produtos que estejam mais alinhados com o molde socialmente consagrado, e é razoável que se acredite que sem um esforço ativo e o desenvolvimento de uma consciência desse processo o problema não vá melhorar, mas, de novo, é preciso resguardar o espaço fundamental para a qualidade, o conteúdo em si , e o direito de qualquer leitor ou leitora de não gostar de qualquer coisa que vá ler, sem que tenham engatilhado contra essa pessoa toda uma série de acusações (ou revirar de olhos) de colaboracionismo com diversas injustiças sociais. 

Existe um arrepio, ou uma súbita perda de fôlego, diante de alguma obra que consegue ser mais do que apenas outra recombinação de signos ou símbolos. É de uma crueldade desnecessária que o jogo apresente marcas tão claras de ser tendencioso a favor de certos segmentos sociais; no entanto, o jogo tem sim seu quê de crueldade inevitável, que é que a maioria, mesmo entre os mais favorecidos, está destinada ao fracasso e ao esquecimento, a ver que todos seus esforços foram, na verdade, infelizmente, desnecessários.

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Para que o texto não fique muito genérico, algumas obras escritas por mulheres que li recentemente e recomendo muito: "O que eu amava", da Siri Hustvedt, "Autobiography of red", da Anne Carson, "Antônio", da Beatriz Bracher, "Os Malaquias" da Andrea Del Fuego" e "Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas" da Elvira Vigna.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Finalmente

Terminei o primeiro rascunho apresentável do meu romance. Em dezembro tinha terminado uma primeira versão da coisa toda (digo, com todas as cenas escritas, na ordem, mesmo), mas decidi dar uma última revisada antes de declarar o negócio como pronto... ou mais ou menos pronto, já que ainda vai ter de passar por um editor. Ficou um monstro bem grande, mais de seiscentas páginas... Agora é a busca por alguma casa editorial que publique o negócio. Desejem-me sorte.

Tá sendo até estranho sair do trabalho e me dar conta que eu realmente não tenho uma obrigação me esperando quando eu chegar em casa... ainda que eu não conseguisse manter minha meta de trabalhar no manuscrito todos os dias e ficasse vendo mais e mais episódios de Bobs Burger noite adentro, ainda havia a coceira no fundo do meu cérebro me xingando de preguiçoso, preguiçoso, preguiçoso. Lembro (claro, mas juro que estou melhorando nos últimos meses) do Foster Wallace falando de uma comparação que o Delillo (ha! na verdade é o Delillo) escreveu no Mao II:

"onde ele descreve o livro-em-andamento como uma espécie de criança pequena horrivelmente danificada que persegue o escritor, para sempre rastejando atrás dele (se arrastando pelo chão de restaurantes onde o escritor está tentando comer, aparecendo ao pé da cama sendo a primeira coisa na manhã, etc), horrivelmente defeituoso, hidrocefálico e sem nariz e com braços-nadadeira e incontinente e retardado e babando fluído cerebrospinal de sua boca enquanto ele mia e gorgoleja e grita pela atenção do escritor, querendo amor, querendo exatamente a coisa que sua feiura absurda garante que ele conseguirá: a atenção completa do escritor."

Estou já com uma ideia para um próximo romance, mas vou me dar umas férias de alguns meses, nem que seja para leituras. Nessas últimas semanas de revisão eu nem conseguia ler nada direito. Comecei anteontem o Moby Dick e estou adorando.

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Ah, muito recomendado o novo curta do gênio Hertzfeldt (um cara que pra mim tá no patamar Chris Ware, David Foster Wallace, Beethoven, etc): https://vimeo.com/ondemand/worldoftomorrow . É pago, verdade, mas vale cada centavo.

domingo, 8 de março de 2015

Nova tradução

(Noutra tarde em que eu me via sem ânimo de continuar revisando meu romance, fiz essa traduçãozinha. O livro tá editado aqui no Brasil, não sei como ficou a tradução profissional. O texto no inglês tem um tom coloquial fluido que foi um pouco difícil de tentar transmitir no português...)

Gravetos, de George Saunders (do livro Tenth of December)
 
Todos os anos na noite de Ação de Graças nós nos juntávamos atrás de papai enquanto ele arrastava a roupa de papai Noel para a rua e a colocava num tipo de crucifixo que ele tinha construído com um mastro de metal no jardim. Na semana do final do campeonato de futebol americano o mastro era vestido num uniforme e o capacete do Rod e Rod tinha que confirmar com papai se ele quisesse tirar o capacete de lá. No quatro de julho o mastro era Tio Sam, no dia dos Veteranos um soldado, no Halloween um fantasma. O mastro era a concessão de papai à alegria. A nós só era permitido um giz de cera da caixa de cada vez. Na véspera de natal ele berrava à Kimmie por desperdiçar uma fatia de maçã. Ele flutuava por cima de nós quando nos servíamos de ketchup, dizendo, bom o bastante bom o bastante bom o bastante. Festas de aniversário eram com cupcake, nenhum sorvete. A primeira vez que eu trouxe uma garota para casa ela perguntou “qual é essa do seu pai com aquele mastro” e eu fiquei ali sentado e piscando.
 
Nós saímos de casa, casamos, tivemos filhos nossos, encontramos a semente da ruindade florescendo dentro de nós. Papai começou a vestir o mastro com mais complexidade e menos lógica discernível. Ele botou algum tipo de pele sobre ele no dia da marmota e levou um holofote para assegurar uma sombra. Quando um terremoto atingiu o Chile ele colocou o mastro de lado e pintou com spray uma fenda na terra. Mamãe morreu e ele vestiu o mastro de morte e pendurou da barra paralela fotos da mamãe de quando ela era bebê. Nós parávamos por lá e achávamos talismãs estranhos da juventude dele arranjados ao redor da base: medalhas do exército, tíquetes de teatro, suéteres velhos, tubos da maquiagem da mamãe. Um outono ele pintou o mastro de amarelo brilhante. Ele o cobriu de cotonetes naquele inverno para aquecer e providenciou uma prole martelando em seis gravetos cruzados ao redor do jardim. Ele correu comprimentos de fio entre o mastro e os gravetos, e grudou com fita cartas de desculpa, admissões de erro, apelos por compreensão, tudo escrito numa caligrafia frenética em cartões de índice. Ele pintou uma placa dizendo AMOR e a pendurou do mastro e outra que dizia PERDOA? E então ele morreu no hall com o rádio ligado e nós vendemos a casa a um casal jovem que arrancou o mastro e deixo-o na beira da rua no dia em que recolhem o lixo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Na medida que o rascunho do romance ultrapassa a página seiscentos

Escrevendo o romance eu me sinto como que esculpindo um bicho. Quando eu vou trabalhar nele, boto minhas mãos na criatura, ele é de pedra, estátua. Construo seu esqueleto e músculos, imagino sua movimentação, projeto (ingenuamente, talvez) sua aerodinâmica. Mas ele voa apenas na leitura dos outros. A imagem prévia que eu tenho do livro (personagens, cenas, ideário, autenticidade intelectual e emocional diante de minhas próprias experiências, o atraso que sinto diante dos autores que mais admiro) é lastro insuperável para que ele consiga voar na minha cabeça.

Posso pedir para outros levarem ele para um voo, me contar se a coisa sequer saiu do chão, se plana tranquilo em tardinhas sem nuvens, se de fato dá rasantes quando decide dar rasantes ou se cai de cara no chão sequer de forma engraçada (apenas triste e constrangedora), mas por mais que me façam relatos pormenorizados de suas experiências, quando eu retorno para o estúdio para retrabalhar um detalhe e boto de novo minhas mãos no bicho, ele é de novo estátua, de novo pedra.

Posto de forma menos pomposa, é uma tristeza ser realmente impossível ler o próprio texto, só sendo possível revisá-lo e retrabalhá-lo. Não por uma inveja de egolatria incontrolável ("nossa, queria ser meu leitor"), e sim por realmente não ser possível ter certeza se a coisa deu certo mesmo ou não na mesma segurança como eu sei que meus livros favoritos dão certo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Inclusividade narrativa

Se em uma história você tem um homem branco espancando outro homem branco, a história é racista porque efetivamente cria um mundo em que só existem brancos, coadunando com uma visão de que negros não merecem a nossa atenção.

Se em uma história você tem um homem branco espancando um negro, a história é racista porque é uma power-fantasy que encena a vontade de mestre punindo os escravos, a vontade que há de subjugar o negro. Racistas vão adorar ler este espancamento.

Se em uma história você tem um homem negro espancando um branco, a história é racista porque mostra os negros como sendo uma ameaça à civilização (branca), que o branco deve sempre ficar atento e pronto pra se proteger.

Se em uma história você tem um negro espancando um negro, a história é racista porque reforça uma noção de que eles seriam assim mesmo, violentos, selvagens, e que é melhor manter distância.

Moral da história: A violência está sempre errada.

(Só uma variantezinha daquela história do casal andando com um burrico, qualquer combinação de utilização do animal há de ser criticada por quem está ali para criticar)

Mais Gass

Traduçãozinha minha de um parágrafo do The Tunnel, do Gass. Ó:

Olhos selvagens eram outro sinal. Era algo que eu raramente vi - a expressão de um estado extático - ainda que muito seja tolamente escrito deles, como se crescessem feito alcachofras de Jerusalém pela estrada. Os olhos são negros, certamente, seja lá qual for sua cor normal; eles são negros porque sua percepção se condensou ao carvão, porque o toque e gosto e perfume do amante, o clamor de uma palavra suja, um rio bem-vindo, foram reduzidos no calor da paixão a uma cinza negra, e este resíduo não-queimado de oxidação, este cálice, substitui a pupila de forma que não mais recebe e sim emite, e cada cabelo está em pé, ainda que talvez apenas espalhado em um travesseiro, e as narinas estão alargadas, boca aberta, bochechas sugadas de forma que a face inteira parece tão espremida como uma fruta sem suco; eu sei, pois uma vez Lou adentrou estra selvageria enquanto nos absorvíamos um ao outro, tentando beijar, não meramente forçosamente, não a caveira de nossos esqueletos, mas a caveira e todos os ossos em que o próprio ser essencial é dependurado, beijo tal que o contorno de nossos espíritos é mexido também, o que é conhecido como o máximo dos beijos de língua, a foda mais funda, quando o pau faz um conceito gritar e gozar; eu sei, pois mais de uma vez, embora não frequentemente, eu tremi para dentro desta outra região, quando uma boca me puxou por sua generosidade para dentro do reino do desemaranhar, e cada sensação jazia estendida como um lago, cada nó afrouxado, e a cola das coisas dissolvia. Eu sabia que carregava o olhar selvagem então. O maior presente que você pode dar a outro ser humano é deixar que ele te aqueça até, no passar para além do prazer, suas defesas caiam, seu ego se rende, as estruturas derretem, prédios despencam, mentiras, preferências, vaidades, são sopradas pra longe em vento nenhum, e você retorna, não ao barro de onde você veio - este recipiente cru - mas ao momento original de inspiração, quando você era o sopro em nada abreviado de Deus.