domingo, 19 de julho de 2015

Literatura feminina

O assunto do momento
(O momento sendo semana passada, mas enfim, me acostumei já a chegar atrasado nessas coisas)

Ah, como me encanta a literatura feminina, com sua sensibilidade, sua delicadeza, sua ternura, sua doçura...

Em homenagem às mulheres, que são tão importantes na vida de nós homens, um trechinho que sublinhei nas minhas leituras dos últimos meses:

“Ela olhou para trás e viu que o touro, sua cabeça baixa, corria em sua direção. Ela permaneceu perfeitamente parada, não por medo, mas congelada pela descrença. Ela olhou à risca negra e violenta avançando em sua direção como se ela não tivesse senso de distância, como se ela não pudesse decidir de imediato qual era sua intenção, e o touro enterrou sua cabeça em seu colo, feito um amante selvagem e atormentado, antes que sua expressão mudasse. Um de seus chifres afundou até perfurar seu coração e o outro se curvou ao redor de seu lado e a segurou em um agarro inquebrantável. Ela continuou a olhar direto para frente mas a cena inteira diante dela havia mudado – a linha de árvores era uma ferida escura em um mundo que não era nada além de céu – e ela tinha a aparência de uma pessoa cuja visão tinha sido subitamente restaurada mas que acha a luz insuportável.” 
(Flannery O'Connor)

 e

“Só depois de acusá-lo do crime de silêncio que Babel descobriu quantos silêncios existem. Quando ele ouvia música ele não escutava mais às notas, mas aos silêncios do meio. Quando ele lia um livro ele se entregava por inteiro às vírgulas e aos ponto-e-vírgulas, ao espaço depois do ponto e antes da letra maiúscula da próxima frase. Ele descobria os espaços em uma sala onde o silêncio ajuntava; as dobras dos tecidos das cortinas, as tigelas fundas da prataria da família. Quando pessoas falavam com ele, ele escutava menos e menos do que eles não eram. Ele aprendeu a decifrar o sentido de certos silêncios, o que é como resolver um caso difícil sem pistas, não apenas intuição. E ninguém porderia acusá-lo em não ser prolífico em seu métier escolhido. Diariamente, ele produzia épicos inteiros de silêncio. No começo foi difícil. Imagine o fardo de se manter em silêncio quando sua criança pergunta se Deus existe, ou a mulher que você ama pergunta se você a ama de volta. No início, Babel ansiava pelo uso de apenas duas palavras: Sim e Não. Mas ele sabia que apenas proferir uma única palavra seria destruir a delicada fluência do silêncio.
Mesmo depois de eles terem prendido ele e queimado todos seus manuscritos, que eram todos páginas em branco, ele se recusava a falar. Nem menos um gemido quando eles deram nele uma pancada na cabeça, um pontapé de bota na virilha. Apenas no último momento possível, quando ele estava frente ao pelotão de fuzilamento, que o escritor Babel subitamente percebeu a possibilidade de seu erro. Enquanto os rifles eram apontados ao seu peito ele se perguntou se o que ele tomou pela riqueza do silêncio era na verdade a pobreza de nunca ser escutado. Ele tinha pensado que as possibilidades do silêncio humano não tinham fim. Mas quando as balas rugiram dos rifles, seu corpo foi crivado de verdade. E uma pequena parte dele riu amargamente porque, de qualquer maneira, como que ele poderia ter esquecido o que ele sempre soube: Não há nada que se iguale ao silêncio de Deus.”
(Nicole Krauss)

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(as duas traduções de minha autoria)
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Agora vamos desligar o sarcasmo para tratar de algumas obviedades. A expressão "literatura feminina" é machista. Ninguém fala em literatura masculina. O que haveria de feminino intrínseco nos trechos acima? Existe talvez uma tendência de autoras mulheres de tratarem de certos temas, assim como existiria de homens tratarem de outros(que não vão ser "mais universais" só porque a inércia da cultura diz que são)... Mas a grande literatura, a literatura realmente importante, não seria aquela que supera tendências, ou as toma como desimportantes? Não foi espanto e interesse o que causou o Knausgard ao falar de paternidade quando criar filhos era tido como um assunto para mulheres?

Talvez não exista mesmo o leitor que vá desconsiderar por completo o gênero autoral na hora de apreciar um livro em suas sutilezas, mas acho mais interessante que se tome o cuidado para isso não passar de um detalhe: falar que toda a brutalidade dos contos da Flannery vem de uma pessoa com útero da mesma forma como se fala que vem de uma pessoa que criava galinhas na infância e ensinou uma delas a andar pra trás. Associá-la a outras obras pelo conteúdo de sua escrita, a religiosidade desgraçada, a descrença na capacidade do ser humano de se superar, e não pela caixinha que ela fazia x na hora de preencher formulários me parece mais produtivo e respeitoso à artista.

É de fato ruim que a maioria dos autores é masculina, pelo mesmo motivo que é ruim que a maioria seja sempre masculina em quase todos ofícios de alguma importância (os que não se baseiam em força física): o desperdício imenso de talento não incentivado, desconsiderado porque ambição à grandeza (simbólica, sob quaisquer parâmetros) não ser algo tido como importante para mulheres.

Por outro lado, se o incentivo for exagerado num esforço puramente compensatório ("escreva mais, precisamos de mais mulheres escrevendo") fica forçada uma distorção que deixa de lado o que há de mais importante, a qualidade do resultado. Tomar o "lugar de fala" como critério qualitativo importantíssimo debanda para essa crueldade que faz de um livro ruim ou bom ser igualmente um "livro feminino", do qual precisaríamos mais, sem perceber que esse raciocínio serve para fomentar o discurso dos poucos idiotas remanescentes (tipo o Naipaul uns anos atrás falando merda) que acreditam que escrever literatura não é coisa para mulheres. Escrever é para todos, mantendo-se o critério implacável da qualidade.

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