segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Relendo: Crônica da Casa Assassinada

Acreditando que cheguei a um estágio minimamente aceitável no que diz respeito a amplitude da minha bagagem de leitura, sabendo mais ou menos delinear afinal o que é do meu gosto e o que não é (estranhamente para mim não foi algo tão espontâneo assim, tão fácil de discernir), e tendo finalmente terminado de escrever o meu romance, decidi por revisitar alguns dos livros que mais me impressionaram nessa minha vida de leituras. No afã de tentar não incorrer no erro de muitos escritores de início de carreira em ficar concentrado na obra de um ou outro autor obsessivamente e daí acabar produzindo cópias pouco convincentes, acabei diversificando minhas leituras de forma talvez exagerada: foram poucos autores os que li a obra completa, e poucos os livros que passaram por releitura. Pouco mais de uma dúzia, talvez; talvez teria sido mais produtivo conhecer menos autores para conhecer outros mais afundo. Daí a ideia de começar uma nova prática de leitura: dentre os três ou quatro livros que ficam se alternando entre a cabeceira da minha cama e o banco de trás do meu carro, sempre um que eu já tenha lido antes e esteja revisitando. Ver o que eu encontro de diferente, de novo, de detalhe despercebido.

(Claro que não tenho cumprido essa determinação à risca, mas o que vale é a intenção)

Comecei pelo Crônica da Casa Assassinada. Acabou por ser ao mesmo tempo frustrante e fascinante; se a ideia do projeto era ver coisas novas, ter uma percepção quem sabe diferente do livro, aquela coisa clássica de que “ah, minha leitura mudou, mas o texto continua o mesmo: na verdade quem mudou fui eu”. Crônica é exatamente como eu lembrava, incrível, transbordante, daqueles livros em que dá pra imaginar montando uma casinha em algum canto dentro de suas páginas e morar dentro dele por vários meses (ou invadindo algum dos quartos abandonados do edifício do livro, se preferirem a imagem do prédio em vez da do terreno). O que me surpreendeu primeiro foi a consistência da perfeição do livro: já é sacada velha a conversa de que o teste verdadeiro da qualidade de uma obra é abri-la na página noventa e nove e não na página inicial, que autores sempre tendem a dar um gás a mais no iniciozinho (como é compreensível) e tendem a ir perdendo a força quando o começo fica excessivamente bom.

(aliás, deixa eu ir lá na página noventa e nove do manuscrito do meu livro pra ver se tá um lixo)

Enfim, aqui o primeiro parágrafo e um pouquinho do segundo:
“1. Diário de André (conclusão) - (...meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará meus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas...
Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis. Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos [...]”

Crônica nunca perde a força, mesmo partindo de um dos melhores inícios de livro que eu já vi. É inclusive uma das críticas que a galera da verossimilhança estrita mais faz ao livro, de que ele é excessivamente consistente, de que todo mundo fala no mesmo estilo incrível, do garoto de dezesseis anos que usa adjetivos como “insofismável” à empregada da casa (que na verdade um detalhe depois revela, e torço que eu não esteja lembrando errado aqui, que ela na verdade é britânica e que veio dar aulas de inglês a Timóteo, inclusive com literatura inglesa; o molde-estereótipo de criada então não é cabível a Betty) que escreve coisas como ( ao descrever a beleza terrível de Nina):

“ainda hoje, passado tanto tempo, não creio que tenha acontecido outra coisa que me impressionasse mais do que esse primeiro encontro. Não havia apenas graça, sutileza, generosidade em sua aparição: havia majestade. Não havia apenas beleza, mas toda uma atmosfera concentrada e violenta de sedução. Ela surgia como se não permitisse a existência do mundo senão sob a aura do seu fascínio – não era uma força de encanto, mas de magia. Mais tarde, à medida que se degradou, fui acompanhando em seu rosto os traços do desastre, e posso dizer que nunca houve vulgaridade nem rebaixamento na nobreza de seus traços. Houve uma metamorfose, uma substituição talvez, mas o que era essencial ficou e, morta, sob seu triste lençol de renegada, ainda pude descobrir o esplendor que vi naquele dia, flutuando, insone e sem guarida, como a luz da lua sobre os restos de um naufrágio”.

(puta que o pariu, hein?)

O que torna o feito particularmente espantoso é que o romance inteiro finca com os dois pés sua existência na estética do exagero, do desabrido, do vou-cortar-os-pulsos-pra-escrever-poesia-com-meu-sangue. Eu tenho realmente uma queda natural por esse tipo de expressão (Lobo Antunes, Foster Wallace, William Gass, parte grande do Sérgio Sant’Anna, e, paradoxalmente misturado com estoicismo e dureza, Cormac McCarthy) e minha escrita acaba caindo para esse lado também com alguma frequência. O risco envolvido é grande. Se um autor opta por uma estética do menos, da contenção, o erro que ele comete faz com que a obra caia no nada, surta efeito nenhum. Uns anos atrás fui ler o Raymond Carver, empolgado para conhecer a obra que dizem que praticamente ditou como se escrevia conto nos anos oitenta nos Estados Unidos, e achei o livro apenas legal. “Legal” não é uma marca acessível para a estética do desabrido: não tem quem ache o Foster Wallace ou o Lobo Antunes ou o William Gass “bons”: ou você acha incrível ou acha um lixo. Não existe o dar-de-ombros ao final da leitura desses livros; muito mais fácil é o abandono seguido de um tweet perguntando com inevitável superioridade o que é que vocês afinal enxergam nesse(s) cara(s), affe. (Porque, claro, nunca é uma questão de gosto pessoal, e sim lamentável falta de discernimento dos outros).

(Não colocando os autores dessa listinha como se fossem perfeitamente intercambiáveis: é óbvio que é possível gostar de Crônica da Casa Assassinada e achar William Gass uma bosta, e nem desqualificando quem não aprecie qualquer um desses; é quase sempre um desperdício de esforço e tempo criticar o gosto dos outros, pra qualquer lado que for)

Voltando ao delineamento da dicotomia: se a estética do contido corre o risco da ineficácia e do vazio, a estética do desabrido por sua vez corre um risco a meu ver bem mais terrível, o do ridículo. De o texto pedir aquele pacto de alma completo e eterno e explícito e o leitor rir, ou preferir ser menos cruel e apenas falar “calma, cara, senta aí e toma uma água”. Um texto da contenção pode passar por várias páginas calmas na montagem de um efeito posterior, enquanto o desabrido precisa a todo tempo se provar esteticamente como legítimo, o volume sempre posto ao máximo. Para além do risco do ridículo, o risco do cansaço espreita a cada virada de página. Claro, os livros dessa estética tendem a ser longos, como que naturalmente longos demais. Ideários de elegância e bom gosto não combinam com esses projetos artísticos: o ímpeto deve ser forte o suficiente para não cair no abismo do ruim, que parece ser mais fundo ou mais escorregadio do que o dos colegas que apostam no outro lado.

(O próprio Foster Wallace parece ter desejado passar do lado exagerado para o contido, o que de certa forma não é de todo arbitrário se pensarmos dentro do panorama filosófico composto em sua obra: se o Pale King era o livro-irmão e livro-oposto de Infinite Jest, o livro sobre o tédio se contrapondo ao livro sobre o entretenimento, até que existe um sentido interno que ele siga por outro percurso. Mesmo assim ao ler o que ele tinha escrito ainda fica a impressão estranha de ver uma águia decidir ir de uma montanha a outra andando em vez de usar as asas)

Talvez forte não seja o adjetivo correto, uma vez que não é falta de vontade ou empolgação que faz com que uma obra fracasse: o poeta que escreve com seu sangue não fracassa por não ter sangrado o bastante, não ter cortado fundo o suficiente. Afinal, é na juventude que a inexperiência diante do mundo e do existir funciona como um catalisador de todas as emoções e quase nunca é na juventude que um autor constrói suas melhores obras. É mais fácil que o fracasso seja na falta de técnica do rapaz na hora de lidar com a caneta tinteiro cheia de sangue ressecado por dentro, ou ver que o papel reage bem diferente do que quando se escreve com esferográfica. Não faltava sentimento ao jovem Lúcio Cardoso, faltava apenas técnica, que infelizmente não há outra forma de ela aparecer salvo pelo talento nato (raríssimo) ou pela insistência.

E talvez seja essa barreira gigantesca existente na estética do desabrido que tenha provocado tanto espanto aos leitores da obra anterior de Lúcio Cardoso o aparecimento de um livro como o Crônica: é unânime a afirmação de que lendo seus livros anteriores ninguém esperava por algo da excelência do Crônica. Até mesmo o próprio autor ecoa o sentimento, dizendo que era seu primeiro livro de verdade (para depois ter um derrame e não conseguir escrever mais nada).

Nas quinhentas páginas do livro, devem ter somado menos de meia dúzia as frases que fizeram com que eu torcesse o nariz e pensasse “menas, cara, menas”. Infelizmente uma logo na cena de André no enterro de Nina, mas enfim, era mesmo impossível manter o crescendo no trágico depois da invectiva dele contra Deus da última vez que ele tinha falado, após fazer sexo com Nina (o corpo quase desfeito por sua doença):

“De todos os lados, como um rio invisível que fosse crescendo, e esbatesse suas ondas de fúria contra os limites opostos que representávamos, o sentimento do fracasso se interpunha entre nós; passo a passo fui recuando, recuando, até o fundo da parede, como se deixasse espaço para que aquele mar fervesse, e subisse até nossos peitos impotentes, e nos atordoasse com seu cheiro de sal e de sacrifício. Rapidamente o mundo recompunha-se no seu mutismo. Pela primeira vez então, ergui o punho contra o céu: ah, que Deus, se existisse, levasse a melhor parte, e dela arrancasse seu sopro naquele minuto mesmo, e estabelecesse sua lei de opressão e tirania. Que até nos diluísse em matéria de nojo, e vivos, para maior divertimento seu, exibisse o atestado de nossa podridão e de nossa essência de lágrimas e de fezes – nada mais me importava. Literalmente anda mais e importava. Um vácuo fez-se em mim, tão duro como se fosse de pedra. Senti-me sorvendo o ar, caminhando, existindo, como se a matéria que me constituísse houvesse repentinamente se oxidado. E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, pois inventou também ao mesmo tempo a ânsia inútil, o furor do escravo, e a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão”

Mas a releitura serviu para uma coisa facilmente apontável, para além do prazer imenso de revisitar esse texto e todas as abstrações estéticas rapidamente rabiscadas aí em cima: reconstruir a impressão que eu tinha tido do final do livro, por sugestão da Ludimila. A confissão que Ana faz ao padre no final do livro, uma revelação meio absurda que meio que desfaz a questão do incesto no livro, pode muito bem ser invenção dela, em meio ao desespero e demência. Não descartando de todo a possibilidade de realmente ser o catolicismo do autor falando mais alto e ele tentando ter prova documental para expiar sua culpa de pecador contumaz diante de São Pedro quando morresse, mas a possibilidade de ser loucura  de uma Ana idosa e desdentada, querendo tomar para si o espaço de protagonista de uma ação extraordinária (suas últimas palavras transcritas no livro são, afinal, “Padre, e eu, não estou salva também, não pequei como os outros, não existi?”).

Não faz muito sentido na estética de mergulho profundo de subjetividade um segredo como esse ser real: quase equivale ao livro de detetive que revela que o assassino na verdade é o detetive-narrador. Desmonta imensamente a dramaticidade do livro (que mesmo assim resiste, claro, pelo poder do texto), uma nota dissonante justo em um romance que espanta pela sua consistência. Reconheço que talvez seja influência da história que ouvi recentemente que é quase dado por certo que foi demência que motivou Salieri a confessar seu suposto assassinato de Mozart, ou talvez seja que eu realmente prefira que não tenha essa conversa de final surpresa de troca de bebês.  Caso eu esteja errado, que o livro fique como atestado de que não existe final ruim o suficiente que arruíne um livro verdadeiramente extraordinário, se ele se mantiver grande até a beira do final. A não ser, claro, que seja algo ainda pior do que surpresa num esquema telenovela.

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