terça-feira, 3 de novembro de 2015

Ódio automatizado ao contemporâneo

A produção de literatura deve ser uma das poucas atividades humanas que tem como primeiro público pessoas predispostas a odiá-la.
Tenho o assunto desse texto ruminando na minha cabeça há um tempo, e em um rascunho anterior eu suscitava como exemplo praticamente todas as caixas de comentários do blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues. Não se trata da desgraça comum das caixas de comentários da internet, em que frequentemente se denuncia esse governo que está arquitetando a vinda de alienígenas pedófilos para roubar as armas do cidadão comum para que ele fique indefeso contra as invectivas da ditadura do politicamente correto, e sim de uma desgraça light, uma desgraça semi-refinada, uma desgraça que suspira apaixonadamente ao ler poesia. A desgraça bem típica do leitor de fim de semana, que lê três vezes mais do que o brasileiro comum (isso é, quase nada) e ainda assim se veste sem constrangimento com roupa de entendedor profundo e crítico incisivo, quando na verdade a satisfação de ler sua opinião tende a ser próxima da de acordar com dor de dente.
Nunca me esquecerei de um post em que o Sérgio Rodrigues elogia o início do “Um Conto Nefando” do seu xará Sant’Anna, em que uma mãe num clima de abuso perdoado tem relações sexuais com seu filho, referido pelo texto como "poeta maldito". O comentário tecia uma crítica do tipo que a caracterização do conto era meio clichê. O texto chama um personagem de Poeta Maldito e o indivíduo acredita que é falta de criatividade do escritor, e não qualquer vontade de trabalhar os arquétipos de maneira mais direta e transparente.
Não se trata de tirar o direito das pessoas de não gostarem de textos literários, ou até mesmo de ocasionalmente estarem erradas ou de escreverem besteira, e sim de discutir a prontidão e o prazer que muitos leitores sentem na hora de desqualificar qualquer produção contemporânea, ufanando-se sempre dos tempos gloriosos dos grandes escritores que nunca voltarão.
No entanto, nas primeiras versões desse texto tudo estava muito abstrato, parecendo aquelas soluções brilhantes para problemas inventados, até que essa semana uma santa alma me fez o favor de permitir que esse texto seja ilustrado com uma síntese perfeita:



Há várias questões em jogo, aqui. A primeira, mais simples, é a mera seleção do tempo: temos de cada época antiga da literatura apenas os melhores escritores e os melhores textos; os medianos, medíocres e ruins tendem a ficar para os especialistas que buscam reconstruir um período literário em suas dissertações (been there done that no meu Mestrado, nunca mais, a vida é muito curta). A literatura nos 30 no Brasil pode parecer superior ao lermos Graciliano após ter aturado um livro fraco publicado no ano passado, mas é justamente por lermos Graciliano e não as dezenas e centenas de livros do período que foram justamente esquecidos.
Até prêmios literários, que fazem um pouco desse serviço no contemporâneo, não nos ajudam certeiramente; todos conhecem a velha história do Sagarana ter ficado em segundo lugar no concurso em que foi inscrito, atrás de um livro que hoje ninguém lê, o próprio Graciliano figurando na comissão julgadora. Todos os jurados comentam a loucura que é ler uma fatia significativa do que é lançado pelas editoras no período de um ano; e nem dá pra cobrar dessa maratona massificada de um-livro-por-dia o discernimento perfeito em uma arte que frequentemente valoriza a sutileza, o sub-entendido, ou até mesmo o escondido. A literatura sempre foi e sempre será um jogo demorado.
Já acreditei que essa era o único ou o principal fator operante, mas mais recentemente vejo que não é só isso. Os dois casos citados aqui são de Sérgio Sant’Anna, um dos mais premiados escritores da atualidade e, a meu ver, a única obra de formação inicial nos anos 70 que conseguiu sobreviver a bagunça de categorias significativas que foi a redemocratização brasileira (quem quiser saber mais sobre isso, leia minha dissertação, é grátis), criador de uma das obras mais sólidas de toda a literatura brasileira, e o romance do Sérgio Rodrigues, que a senhora lá achou “chato pra caramba” e que conta com trechos como esses:

“Entre o fim da infância e o auge da adolescência, meio orgulhoso e meio horrorizado, Neto aprendeu pela imprensa a soletrar o rol das amantes de seu pai, uma por uma: princesas europeias libertinas, starlets americanas drogaditas, socialites de pescoço longo de Modigliani, filhinhas perdidas de general e brigadeiro em idade ilegal dadas a vomitar às seis da manhã sob a mesa do Hippopotamus, escritoras intoxicadas de Anaïs Nin e Shere Hite, atrizes do Zé Celso imunes aos desconfortos da depilação, atrizes de pornochanchada e de Tchékhov, capas de Ele Ela e Status, aspirantes às capas de Ele Ela e Status, psicanalistas reichianas, cantoras bissexuais. Mesmo que metade daquilo fosse lenda, era evidente que nunca tinham faltado a Murilo Filho, o filho da puta, as graças de um grande elenco de habitantes fogosas daquele mundo pré-aids. Era quase perdoável que não tivesse tempo para ser pai.”
(listagem de fazer descer uma lágrima de orgulho no William Gass)

ou

“O Perna sempre passava do ponto na birita, ficava chato, mas o pessoal entendia. O cara tinha uma perna mecânica da qual não se podia falar, era tabu, o mesmo que perguntar hoje ao Roberto Carlos da perna dele: todo mundo sabia e ninguém comentava, mas aí é que está. Apesar disso, todos chamavam o Perna de Perna. Era o apelido dele desde a época do Tiro de Guerra, quando ele ainda tinha as duas pernas e começaram uma brincadeira no vestiário dizendo que ele era aquinhoado de uma terceira entre as duas de um ser humano normal. No início o chamavam de Terceira Perna, mas Terceira Perna era um apelido inviável, comprido demais, ficou Perna. (...) O Perna gostou daquilo de dizerem que era bem-dotado. As mulheres perguntavam por que Perna e os homens se entreolhavam, desconversando. Algumas donas era inevitável que botassem malícia, imaginassem o resto, mas o Perna achava isso melhor ainda, tudo propaganda. Quando anos depois perdeu a perna na serralheria do pai, era tarde para voltarem a chamá-lo de Reginaldo, e começou a comédia: o nome que o protegia era o mesmo que o atacava. A cidade entrou em curto-circuito, acabaram por prevalecer tanto o apelido quanto o tabu. Todo mundo chamava o Perna de Perna, mas ninguém falava do aleijão do Perna na frente dele, coisa horrível, mesmo porque diziam que tinha afetado de algum modo sinistro a tal ex-terceira perna, que agora seria no máximo a segunda mas talvez nem isso, ai, meu Deus.”

Cheio de sexo, violência, ressentimento, denúncia de racismo e machismo e um entendimento histórico sutil a respeito da realidade brasileira, é até possível imaginar que alguém talvez questione como se compõe esse entendimento histórico e essas denúncias; falar que o livro é chato, no entanto, é apenas bizarro. Até quem odeia futebol tem grande chance de gostar muito do livro; vê-se um cuidado apurado com cada página e um interesse vívido de manter o interesse do leitor até mesmo de attention-span curtinho, internético.
Já postei anteriormente sobre a diferença de ler um livro contemporâneo e ler um clássico. Ítalo Calvino famosamente diz com sorrisinho de canto de boca que o clássico é o livro que sempre se diz estar relendo: há um pressuposto de dívida sendo saldada quando um leitor vai pela primeira vez às páginas de um clássico, a frase “estou lendo X pela primeira vez” carregando quase sempre o advérbio implícito de “finalmente”. Imagina-se também uma doação altruísta de seu tempo livre para manter acesa a morredoura chama da civilização, tão ameaçada hoje em dia por reality shows e mídias sociais (sem a possibilidade da pessoa em suas leituras alcançar a percepção de que a chama da civilização sempre esteve sob ameaça, ou que o que se chama de civilização às vezes é apenas o incêndio que se põe naquilo que está no caminho das vontades dos poderosos).
Com o contemporâneo, por sua vez, a doação não é feita ao espírito do ocidente, e sim à pessoa física do autor, que bem que poderia depois mandar um email de agradecimento pela magnanimidade do leitor ao escolher seu texto em vez do de um consagrado. Nessas leituras de saldar dívidas, qualquer defeito em um clássico é rapidamente relevado e posto de lado: se Dickens é prolixo, isso se dá pela conjuntura comercial da produção literária de sua época, de pagarem por palavra; se Robinson Crusoé é terrivelmente imperialista, é apenas a normalidade do pensamento vigente do período; se Joyce é obscuro é por ser profundo demais (e quase nunca metido), cabendo ao leitor apenas correr atrás.
Qualquer defeito em um contemporâneo é motivo para amargurar profundamente não estar gastando seu parco tempo de leitura (e é verdade que uma vida inteira para leitura parece muito pouco) com algo consagrado. O poder simbólico na relação de leitura dessa pessoa se estrutura de forma muito simples, o mais poderoso e o menos poderoso: o autor canônico mais poderoso que o leitor contemporâneo, o leitor contemporâneo mais poderoso que o autor contemporâneo. Nunca se busca (talvez sequer se imagina como possível) uma relação mais de equanimidade, de diálogo.
Se fosse só uma questão de como os defeitos são absorvidos pelo leitor, o problema não seria tão espinhoso. A triste verdade é que não existe unanimidade quanto ao que constitui defeito em uma obra literária, e o leitor que já abre o livro de nariz torcido, predisposto a sentir o cheiro de merda antes mesmo de chegar nas primeiras palavras do livro, vai tomar por defeito tudo que pode ser tomado de tal forma. Para piorar, com o tempo a gente percebe que quase tudo nessa vida pode ser tomado como porcaria se assim quisermos: a um autor de livro curto falta fôlego, a um autor de livro longo falta auto-crítica e um editor competente que tenha sugerido cortes, a um autor de narrativa convencional falta criatividade/ousadia/originalidade e a um modernoso sobra pretensão. Claro que é possível que existam livros magros demais, longos demais, convencionais demais, ou com um excesso de invencionices ilegítimas; existe, no entanto, uma rapidez no julgamento negativo, ou mais que isso, uma vontade de exercer o julgamento negativo (que, claro, deusmelivre, nunca poderia ser exercido em um livro consagrado; se você demorou para terminar de ler aquele clássico é sempre culpa sua).
O protagonista de um comentário elogioso é o objeto elogiado, já o protagonista do comentário crítico é o comentarista. Elogiar o amplamente elogiado é uma pequena forma de fazer com que o protagonista do comentário elogioso seja em parte do comentarista. Nossa, olha fulano, ele lê Tolstoi. Já em falar mal do consagrado há o risco imenso é de ser o protagonista idiota ou pouco sagaz, por mais que possivelmente se fale uma verdade, como por exemplo que Dostoievski de fato escrevia os romances de forma desorganizada; é possível valorar a tal desorganização, mas bem mais passível de vermos a característica sendo valorada no Dostoievski do que em algum contemporâneo similarmente verborrágico.
(Há também, como em tudo, o risco contrário, do fulano querer um atalho para ser considerado iconoclasta e original jogando pedra no cânone por critérios apressados. O equilíbrio tende a ser o melhor caminho)
Não há de se falar de uma luta para que esses jogos de ego sejam superados; se isso realmente acontecer algum dia na humanidade, uma literatura mais livre de opiniões estúpidas constará entre os benefícios menores dessa revolução inacreditável. Cabe apenas expor os exageros que às vezes são norma, e tentar construir uma consciência de que esse é um risco constante. Não é apenas o louco da caixa de comentários que coloca as coisas dessa forma, e às vezes não é tão transparentemente estúpido: às vezes traz frases mais ou menos bem construídas, COM MENOS MAIÚSCULAS, e que até conseguem enganar mais do que os cegos.
Olha como é fácil ser superior a todos os escritores brasileiros contemporâneos de uma só vez, dá até pra reciclar texto de vários anos atrás (e de novo, daqui a pouco, quando o Brasil (ó mágoa) não ganhar de novo o Nobel). O problema é muito simples: esses escritores brasileiros que só falam de seus mundinhos... como se Coetzee não falasse da África do sul e de ser um homem branco, Alice Munro de ser mulher no Canada, Herta Muller do autoritarismo que ela mesmo viveu, Vargas Llosa de ter de aturar ser latino-americano, etc etc.

Há sempre o ressentimento do holofote, por menor que seja o holofote, um luzinha em círculo de poucos centímetros de raio (um sucesso editorial no Brasil não precisa chegar a cinco dígitos de vendagem). Qualquer um que sobe no palco para qualquer apresentação precisa sempre responder a pergunta “por que você é o que sobe no palco”, quase sempre sendo omitida o resto da pergunta “... e não eu?”. Qualquer pianista de carreira ascendente rapidamente fica sabendo de comentários atravessados de outros pianistas não tão prósperos, ou destinados (assim se dizem todos os dias no espelho) apenas à consagração póstuma. Creio que esse problema na literatura tem amplitude maior, uma vez que todo leitor é alfabetizado, todo leitor tem seu histórico de leitura, todo leitor reconhece uma história boa de se contar ou ouvir: todo leitor tem em mãos os recursos para se considerar um pianista, restando a ele reclamar de quem está sob ou quem controla os holofotes, até mesmo se ele não tiver composto porra nenhuma.
A paz do escritor genial que nada escreve reside quase exclusivamente no cânone e na legitimidade automática que tem o passado: eu seria um grande escritor, com certeza, mas o tempo de grandes obras literárias passou. As pessoas hoje só querem saber de Big Brother ou facebook, putz, a chama da civilização nunca esteve tão fraca. Não é mais possível ser grande, por isso nem vale a pena arriscar, desavisados são os que vão atrás, ou nem dá pra dizer que vão atrás porque sempre estão e estarão aquém, eu que não faço nada que sou esperto, bem melhor do que esses que ficam tomando o tempo dos outros e se achando por aí, blábláblá.
Não é um mal de agora, claro, achar que o tempo das grandes obras sempre passou: até em Homero existe sub-entendido um período de grandeza humana inteiramente inacessível à imundície contemporânea. Aquiles é mais forte que qualquer um hoje (hoje ou ouvindo algum aedo) poderia ser, Ulisses mais arguto, Helena mais bela e Menelau mais corno (talvez esse último seja verdade, até mesmo antes de existir a escrita já se discutia pelos séculos os chifres do coitado). Igualmente, Drummond é mais sensível, Vinícius mais apaixonado e apaixonante, Cabral mais criterioso, Oswald mais louco (precursor tupiniquim do nude metido à besta, entre outras novidades).
Esse sentimento se reforça no fato de o passado vir a nós bem mais embalado para um entendimento razoável do que o presente, essa bagunça contínua e convulsiva. Em um mundo mais organizado, é realmente mais fácil ver o que constitui o fraco e o genial. Ou talvez seja a influência da infância e dos primeiros anos de leitura na vida da pessoa que não amadurecem depois para algo que caiba ainda a descoberta e a satisfação fora do mundo da nostalgia; é verdade que livros nascem de livros tanto quanto (ou até mais do que) de reflexão e experiências de vida, e os que chegam primeiro produzem sombra grande sobre os que acessamos depois, mas é um leitor acomodado o que parte de forma exclusiva e acrítica da sua experiência pessoal (e da consagração já pré-pronta) para valorar em voz alta, oficialmente, a produção atual. É o crítico gastronômico que em toda resenha diz que tudo é ruim porque nada é melhor do que a comida da mãe: nada de errado de pensar isso (apenas triste depois da mãe morrer), errado é o cara partir daí pra virar ou se fazer de crítico gastronômico.

Há, ainda, aqui, um espacinho também para o bom e velho complexo de inferioridade brasileiro. Se podemos ser bondosos e magnânimos com a capacidade humana de criar obras grandiosas, ter fé no futuro da chama da civilização, querendo nos manter na posição de críticos ferrenhos de tudo que está aí sem ter de contribuir de fato qualquer coisa para a discussão, podemos nos agarrar na velha lamúria de existirmos sob condições tão medíocres. Daí é possível permitir a entrada de um Foster Wallace, Philip Roth, Saramago ou o que valha, tendo sonhos de como seria possível talvez assinar uma obra-prima se você não tivesse de enfrentar filas de cartório, procurar algum seguro-saúde que caiba no seu orçamento ou lidar com vizinhos chatos e mal-educados que certamente não existem acima da linha do Equador.
(a história do ó-nunca-ganhamos-um-Oscar e ó-nunca-ganhamos-um-nobel dá outro post)


É verdade que Tolstoi realmente é muito foda, e que está no direito da pessoa optar por gastar seu tempo principalmente ou exclusivamente com os clássicos (talvez uma decisão melhor se o interesse for de ler apenas livros bons); a dissonância se dá na convivência desses dois mundos na verdade quase-distintos, o contemporâneo e o consagrado, e nada parece impedir que apareçam caga-regras cheios de razão e discernimento sem ter feito qualquer esforço para alcançar na posição de críticos de altíssima capacidade analítica.

Um comentário:

  1. Acho que finalmente vou conseguir escrever a crônica que jaz no meu subconsciente: " Por que nunca consegui ler o ULISSES de James Joyce..."

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