quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Lobo Antunes

Resolvi iniciar 2014 (não sou imune a essas coisas) lendo Lobo Antunes, autor que simplesmente despertou minha sensibilidade para a estilística (esta fissura que hoje me domina, ainda que com objetivos diferentes do que a elegância) quando o li pela primeira vez aos dezenove anos. Ou vinte, não tenho certeza. Nem sempre tenho a energia (ou não-preguiça) de acompanhar sua prosa saltitante-entre-cenas, mas aparecendo do nada coisas como 

"e as cortinas a dilatarem a noite dado que é através dela que as sombras respiram"

certamente fazem valer o esforço. Ainda estou no início, mas no meio do segundo capítulo finalmente pude mais ou menos apreender a forma de organizar a exposição de mundo, personagem e acontecimentos que ele usa nos romances Manual dos inquisidores adiante (a partir do qual ele usa aquele estilo de palavras meio que jogadas na página): é como se as coisas fossem aparecendo meio que num tag cloud ( http://en.wikipedia.org/wiki/Tag_cloud ), sem esquema de tamanho diferenciado, em que o leitor é forçado a montar o mundo em sua cabeça não por uma ordenação razoável dos fatos e sim ir catando estilhaços de algum acidente que aconteceu antes dele chegar. Na maioria dos romances é possível fazer um tag cloud emotivo (sei lá, Machado de Assis seria burguesia - ironia - ceticismo - rio de janeiro, assim adiante, não vão me cobrar isto pelamor), no caso do Lobo Antunes são os próprios eventos que são justapostos fora de um encadeamento cronológico, ou cronológico-remontado (in media res e tal). O cronológico está mais para liquidificado, nos livros dele. 

Não tenho leitura suficiente da ampla literatura de fluxo-de-consciência para poder falar a que ponto isto é coisa dele ou não, mas é verdade também que acho o Ser Original em sua maior parte uma qualidade bastante superestimada em muitas empreitadas artísticas.


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Listinhas de melhor do ano eu sempre fui incapaz de fazer, porque nunca me ative muito a ler um livro por ter sido lançado muito recentemente. Acontece de uma obra ou outra ser lida assim que aparece, mas acho que nem li 5 livros primeiramente impressos em 2013 para poder fazer uma lista 2013 direito. E na verdade não sei também se conseguiria fazer uma lista de livros lidos em 2013 que eu achei memoráveis sem ter que fazer um esforço de memória bem grande (a coisa fica meio embaralhada dentro da minha cabeça) o que acaba por minar a noção de leituras memoráveis, não é mesmo. Sei que ficou muito na minha cabeça o Civilwarland In Bad Decline, do George Saunders, uma mistura de Vonnegut com DFW que conseguiu me impressionar com a sagacidade da sátira e me comover com uma humanidade que irrompe no meio dos estereótipos idiotizados (o pessoal que literariamente estetiza idiotia aqui pelo Brasil poderia bem ler o Saunders), me rendendo vários momentos de erguer-a-cabeça-durante-a-leitura. Foi o suficiente para ter comprado toda a obra em paperback disponível dele. Só que depois fui ler o Pastorlalia e achei uma leitura talvez até abaixo do razoável justamente por ser excessivamente parecido com o Civilwarland, reação minha que me deixou meio perplexo porque eu já imaginava a esta altura (depois de tanto esforço gasto com esta coisa de literatura) já saber mais ou menos o que eu gostava. Enfim, lembrando aqui neste momento sei dizer que este ano eu li The Recognitions, do Gaddis, que de fato é um grande livro (não só um livro grande), mas a fissura com autenticidade não me comove grandemente, e tentei duas vezes (em sequência) começar o Gravity's Rainbow, só que o esquema personagens cardboard cutout feito pelo Pynchon me impediu de seguir muito adiante. E o Middle C do Gass comprovou minha tese que não se escreve grandes obras depois dos oitenta anos (apesar de ótimos trechos aqui e ali).

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sugestão para uma tradução brasileira de Infinite Jest

A tradução "perfeita" de Infinite Jest se mostra impossível a partir do título. É uma citação de Hamlet (o pobre yorick, etc), que é uma peça sem uma "tradução padrão" em nosso meio cultural. A palavra jest se traduz dificilmente pro português: a linhagem imediata dela do inglês é jester, bobo da corte, que não tem no português correspondente em forma de verbo ou substantivo para descrever o que seria o "ato básico" do jester. A palavra brincadeira é corriqueira, dia-a-dia, demais para jest, que é uma palavra antiga. Só que não é só antiga, é antiga mas ainda está bastante presente (tanto pela palavra jester, em todos os baralhos do mundo, ou na expressão "surely you jest" que é meio que utilizada num pedantismo auto-irônico).

As palavras antigas do português para falar brincadeira, no entanto, todas tem uma sonoridade ou aparência excessivamente esquisitas (em um livro que faz do esquisito ferramenta frequentemente utilizada, e portanto não precisa de mais ainda do que já tem). Galhofa faz lembrar farofa, chiste tem uma sonoridade horrível, gracejo a palavra praticamente usa um monóculo: tudo isto daria ao livro uma aparência de rebuscamento que não é desejável (uma vez que faz do rebuscamento ferramenta frequentemente etc... é um livro complexo, é).

(a tradução portuguesa botou piada, o que a princípio eu achei horrível, mas o Galindo me disse que parece que por lá eles usam a palavra de forma diferente de nós: eles podem dizer "não vi piada nisto" para falar que não se viu graça... o que faz a coisa funcionar melhor, certamente)

A palavra graça tem subtons religiosos, que ainda que não sejam inteiramente descabidos dado o forte eixo de moralidade/ética e de certo conservadorismo esganiçado presentes no livro, e acaba por trazer tudo isto pro título, distorcendo um pouco. Alguma distorção é inevitável, claro, e acabam por acontecer justamente nos pontos-problema, caso declarado aqui neste título. Graça infinita, no entanto, parece algo inteiramente positivo, objetivo-de-vida e tudo mais, algo que colocado no contexto da questão maldição-de-midas do hedonismo realmente faz com que a solução seja ao mesmo tempo declaração-de-fracasso. Parece no fim a escolha do Galindo foi "Infinda Graça", trazendo a ambiguidade do hedonismo pro título do livro (com sua subjacente sonoridade de "e o fim da graça"): ainda que seja uma intervenção pesada por parte do tradutor, colocando a mais no título não só a religiosidade do "graça" como a armadilha do infinda e deixando a coisa bem sobrecarregada, acabo por achar que é uma escolha razoável (já que é um livro também sobre o excesso).

[edição posterior e tardia: parece que ele optou de volta pelo Graça Infinita, mais discreto. Não sou contra.]

Ainda assim, no outro dia eu acabei pensando numa outra opção que não vi sendo discutida pelos blogs e caixas de comentários e etc mundo afora. Eu pensei na possibilidade de fazer algo do tipo "Infinite jest - a brincadeira sem limites" ou "(...) - o filme mortífero".

Vários filmes com expressões em inglês meio intraduzíveis como Pulp Fiction, Crash (o do Cronenberg/Ballard), ou Highlander, acabam chegando aqui no brasil mediados pela prática bastante esteticamente questionável de colocar um subtítulo em português mercadologicamente explicativo (tempos de violência, chamando quem quer ver filme violento, estranhos prazeres, para quem quer ver filmes esquisitos, ou guerreiro imortal, aparentemente chamando o interesse de todo mundo dos anos 80). Trazer isto para o livro tem várias vantagens. O Infinite Jest é, no livro, um filme, afinal de contas (que ainda que seja de vanguarda traz como objetivo exclusivo o prazer do expectador, o que para executivos das empresas cinematográficas é o objetivo de todo filme), e o romance discute com grande frequência e profundidade a cultura de massa e de como que ela em si é uma espécie de hedonismo (arqui-inimigo e objeto de fascínio do livro); traz-se à tona com este subtítulo não só uma prática da cultura de massa brasileira, como também fica sublinhada a distância da cultura americana em relação a nossa própria realidade, o que a meu ver é algo bom de se ter no batente da porta de entrada do livro. O Infinite Jest, ainda que ele obviamente tenha várias questões que são Universalmente Relevantes, é a narração de um mundo que é extremamente americano: suas artificialidades (não só as inerentes ao ofício literário, já que é um livro em que a artificialidade juro que este é o último parênteses assim) serão ainda mais alienígenas dado nosso contexto de capitalismo mambembe, em que todo em voz alta todo mundo é mei esquerdinha e que fica xingando no twitter que o Black Friday não ter descontos de verdade, ó desgraça.

E, claro, outro ponto forte desta opção é o fato que fiquei um tempão rindo quando pensei nela.

A desvantagem clara é de que é uma escolha tradutória editorialmente (mercadologicamente) impraticável, já que poucas pessoas das poucas pessoas que vão se dispor a comprar a mercadoria Obra Prima da Literatura Norteamericana vão querer algo que remonte tão fortemente ao trash na capa e lombada de seus enfeites de estante. Já não basta a editora ter de custear uma tradução gigantesca (o tradutor é pago por laudas, afinal) e guardar todo aquele estoque encalhado (que ocupa bem mais espaço do que um livro normal), acho que seria pedir demais pedir que eles levem um prejuízo ainda maior com a empreitada. De qualquer maneira fica aí minha sugestão platônico-trash, que se não serviu de nada pelo menos me deu algum tempo de ficar-rindo-sozinho.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Preâmbulo do Suttree, traduzido

Um parto árido, traduzir este troço. Três páginas, em bem mais do que três horas.

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Caro amigo agora nas empoeiradas horas semrelógio do município quando as ruas jazem negras e fumegantes na esteira dos caminhões-pipa e agora quando os bêbados e os sem-teto lançados às praias apoiados por paredes em becos ou lotes abandonados e gatos avançam de ombros altos e se inclinam nos perímetros cruéis dos arrabaldes, agora nesses corredores de tijolo ou godo enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fiosdeluz fazem uma harpa gótica de portas de porão alma nenhuma andará salvo você.

Velhas paredes de pedra insondadas pela meteorologia, alojadas em seus estriados ossos fósseis, escaravelhos de calcário pregueados no chão deste outrora mar interno. Árvores finas e escuras através das estacadas férreas além onde os mortos mantém sua própria pequena metrópole. Curiosa arquitetura marmórea, estela e obelisco e cruz e pequenas pedras desgastadas pela chuva onde nomes se obscurecem com os anos. Terra abarrotada com amostras do ofício do fazedor de caixões, os ossos empoeirados e seda apodrecida, mortalhas manchadas de carniça. Lá fora sob a luz azul da lâmpada os trilhos de carrinho rodam para a escuridão, encurvados feito esporões de galos no crepúsculo pechisbeque. O aço vaza de volta o calor do dia, você pode senti-lo pelos chãos dos seus sapatos. Depois dessas enrugadas paredes de armazém descendo pequenas e arenosas ruas onde automóveis estourados amuam em pedestais de concreto. Através de viveiros de sumagre e uva-de-rato e madressilva dando para os bancos de barro marcados da ferrovia. Vinhas cinzas enroladas pela esquerda neste hemisfério norte, o que as serpenteia molda as conchas do mar. Ervas daninhas brotam de cinzas e tijolos. Uma pá a vapor erguida em abandono solitário contra o céu noturno. Cruze aqui. Perto das agulhas e das eclises onde motores tossem feito leões no escuro do patio. Para um município mais escuro, depois de lâmpadas cegadas por apedrejamento, depois de choças oblíquas e fumegantes e cães de porcelana e pneus pintados onde crescem flores sujas. Pavimentos térreos rachados de ruínas, lento cataclismo da negligência, os fios que barrigam poste a poste cruzando as constelações dependurados de fios de pipa, engravatados com pedaços de gargalos de garrafas ou brinquedos das crianças mais pequenas. Acampamento dos amaldiçoados. Recintos talvez onde leprosos gotejantes erram sem sinos. Acima o calor e a improvável linha do céu da cidade uma lua de latão ascendeu e as nuvens escorrem feito tinta aguada. Os prédios estampados contra a noite como um baluarte direcionado a um abandonado mundo mais adiante, velhos propósitos esquecidos. Conterrâneos vem por milhas com a terra agarrada aos seus sapatos e sentam o dia inteiro como mudos no mercado. Esta cidade construída sob nenhum paradigma conhecido, arquitetura vira-lata lendo pra trás por meio das obras do homem em uma breve delineação dos aberrantes desordenados e loucos. Um carnaval de formas aprumado na planície fluvial que secou a seiva da terra por milhas do arredor.

Paredes das fábricas de tijolo velho e escuro, trilhas de uma linha de espora crescida com ervas daninhas, um curso de drenagem azul e putrefato onde filamentos escuros de impurezas sem nome balançam na correnteza. Painéis de estanho entre vidros nas molduras enferrujadas das janelas. Há um riso em forma de lua no globo da lâmpada de rua em que uma pedra foi e deste orifício ali venta abaixo pelo helix constante de insetos desejosos uma esvaída e contínua chuva das mesmas formas queimadas e sem vida.

Aqui na boca do riacho os campos correm até o rio, a lama em delta e despindo de seu rico aluvial ossos abrigados e lixo medonho, um sargaço de madeira de caixotes e camisinhas e cascas de frutas. Latas velhas e jarros e artefatos caseiros arruinados que se erguem do atoleiro fecal das planícies como pontos de referência nas áreas sem rastros da plaina de dementia praecox. Um mundo além de toda fantasia, malevolente e tátil e dissociado, as lâmpadas explodidas como pólipos tosquiados semitranslúscidos e cor-de-caveira balançando cegamente em descida e espectrais olhos de óleo e agora de novo as formas encalhadas e fedorentas de humanos fetais inchados como jovens pássaros de olhos arregalados e azulados ou de um cinza rançoso. Além no escuro o rio flui em um lodo indolente direcionado aos mares meridionais,  saindo correndo do milho achatado pela chuva e outros plantios triviais e jardins do barro do rio de donos de terra continente acima, raspando seu caminho como pó ósseo, carretado com o passado, sonhos dispersados na água de alguma maneira, nada jamais perdido. Casas flutuantes correm pelas suas amarras. A lama da maré morta pela costa jaz acanelada e escorregadia como a cavernosa posta de peixe de alguma besta imensamente naufragada e além o continente se desenrola para o sul e às montanhas. Onde caçadores e mateiros uma vez dormiram em suas botas diante da luz morrediça de suas mil fogueiras e seguiram adiante, velhos antepassados teutônicos de olhos incandescidos pela luz visionária de uma rapacidade massiva, onda após onda dos violentos e insanos, seus cérebros atiçados com análogos sem rasto de tudo que já foi, arianos esguios com seu revogado livreto semítico reencenando dramas e parábolas nele contidas e esvaziados de pensamentos e pálidos com uma ânsia que nada salvo a total restituição das trevas poderia aplacar.

Nós somos vindos a um mundo dentro do mundo. Nestes alcances alienígenas, nestes afundamentos malgrados e devastadas terras intersticiais que os justos vêem de carruagem e carro outra vida sonha. Malformados ou negros ou degenerados, fugitivos de todas ordens, estrangeiros em qualquerterra.

A noite está quieta. Como um campo antes da batalha. A cidade assaltada por uma coisa desconhecida e virá da floresta ou do mar? Os encarregados do muro emparedaram as paliçadas, os portões estão fechados, mas eis que a coisa está dentro e pode você adivinhar sua forma? Onde ele é mantido ou qual a medida de seu rosto? Será ele um tecelão, uma lançadeira ensanguentada arremessada por uma deformação no tempo, um cardador de almas do tecido do mundo? Ou um caçador com seus cães ou carregam sua carreta morta cavalos de osso pelas ruas e chamaria ele seu ofício para cada um? Caro amigo ele não é algo no qual se pode alongar pois é por este expediente que ele é convidado para dentro.

O resto de fato é silêncio. Começou a chover. Chuva leve de verão, você consegue vê-la caindo inclinada nas luzes do município. O rio jaz em um graal de quietude. Aqui da ponte o mundo embaixo aparenta um presente de simplicidade. Curioso, não mais. Embaixo aqui na gruta de luz caída um gato transpira de pedra a pedra através de godos preto líquido e costurado em rápidos antípodas sobre a rua chuvaescura  para sumir gato e contragato nas obras fendidas além. Iluminação pálida de verão longe rio abaixo. Uma cortina está ascendendo sobre o mundo ocidental. Uma chuva fina de fuligem, besouros mortos, pequenos ossos anônimos. A audiência senta enteiada em pó. Nas cavidades oculares evisceradas da caveira do interlocutor uma aranha dorme e as ruínas em junção do tolo enforcado dependuram-se das moscas, pêndulo ósseo variegado. Formas quadrúpedes vão pra lá e pra cá por cima das tábuas. Formas mais rudes sobrevivem.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pensamento do dia, depois de quase terminar de traduzir um conto do DFW

Pegar um texto literário de linguagem trabalhada e passá-lo de um idioma pra outro é tipo transpor uma dança para um novo lugar onde a gravidade funciona de forma diversa e os dançarinos tem um número diferente de pernas.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Um problema da crítica

Um problema inescapável à toda crítica, independente de corrente filosófica, filiação estética ou estado de desenvolvimento intelectual, é algo que na verdade se deriva do egocentrismo: quando o crítico fala mal de certa obra, o protagonista da fala é o crítico, que fica acima do objeto comentado (aquém do sucesso em seus critérios, etc); quando o crítico fala bem da obra, o protagonista da fala (o foco do holofote) é a obra. E tem gente que tem uma preferência excessiva pelo protagonismo.

(claro que isto não quer dizer que todas as críticas negativas se expliquem por esta questão e sejam portanto sempre inválidas (eu mesmo já resenhei alguns livros e no final o saldo de avaliações foi negativo), mas às vezes é útil para entender algumas críticas que de outra forma são meio incompreensíveis: a pessoa parece estar se achando incrivelmente esperta por falar o que está falando?)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Primeiro parágrafo do Suttree, do Cormac McCarthy, traduzido

Postei no facebook uns dias atrás, estou colocando (colando) aqui, agora, também.

"Caro amigo agora nas empoeiradas horas semrelógio do município quando as ruas jazem negras e fumegantes na esteira dos caminhões-pipa e agora quando os bêbados e os sem-teto lançados às praias em abrigos de paredes em becos ou lotes abandonados e gatos avançam adiante com ombros altos e se inclinam nos cruéis perímetros dos arredores, agora nesses corredores de tijolo ou godo enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fiosdeluz fazem uma harpa gótica de portas de porão alma nenhuma andará salvo você."

(No original: Dear friend now in the dusty clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the water trucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth high-shouldered and lean in the grim perimeters about, now in these soot -blacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Suicídio como uma espécie de presente

(Continuo na onda de passar o tempo fazendo traduções. Este aqui demorou o dobro do tempo dos dois contos do Barthelme juntos, a linguagem é meio truncada, estranha. Tem umas coisas que não sei se ficaram lá essas coisas, mas de qualquer maneira aí vai. É um dos meus cinco contos favoritos.)

(Os números são notas de pé de página, que coloquei como pé-de-parágrafo para diminuir os scroll-downs)
Suicídio como uma espécie de presente (David Foster Wallace)
Uma vez havia uma mãe que de fato tinha muitas dificuldades, emocionalmente, por dentro.
Da forma como ela lembrava, ela sempre tivera dificuldades, mesmo quando criança. Ela lembrava de poucos das especificidades de sua infância, mas o que ela podia lembrar eram sentimentos de auto-desprezo, terror , e desespero que pareciam estar com ela sempre.
Numa perspectiva objetiva, não seria impreciso dizer que esta futura mãe teve umas merdas psicológicas bem pesadas colocadas em cima dela quando tinha sido menininha, e parte desta merda seria qualificável como abuso dos pais.  Sua infância não tinha sido tão ruim como algumas, mas não tinha sido nenhum piquenique. Tudo isso, embora preciso, não seria exatamente o ponto.
O ponto era que, de uma idade tão inicial quanto ela podia se lembrar, esta futura mãe se odiava. Ela via tudo na vida com apreensão, como se cada ocasião ou oportunidade fosse alguma espécie de exame terrivelmente importante para o qual ela tinha sido preguiçosa ou burra demais para se preparar adequadamente. A sensação era a de que como se uma nota perfeita em tal exame era necessária para poder impedir alguma punição estilhaçante.1 Ela se aterrorizava de tudo, e ficava aterrorizada de demonstrar isto.
1) Os pais dela, a propósito, não batiam nela e nem mesmo a disciplinavam, ou a pressionavam.
Esta futura mãe sabia perfeitamente bem, desde uma idade jovem, que esta constante e horrível pressão que ela sentia era uma pressão interna. Que não era culpa de mais ninguém. E então ela se odiava ainda mais. Suas expectativas de si mesmo eram de completa perfeição, e cada vez que ela ficava aquém da perfeição ela se enchia de um insuportável e mergulhante desespero que ameaçava estilhaçá-la como um espelho barato2. Estas altas expectativas se aplicavam a cada departamento da vida da futura mãe, particularmente aqueles departamentos que envolviam a aprovação ou reprovação de outros. Ela foi, portanto, na infância e na adolescência, vista como inteligente, atraente, popular, impressionante; ela era elogiada e aprovada. Colegas aparentavam invejar sua energia, ânimo, aparência, inteligência, disposição e infalível consideração pelas necessidades e sentimentos dos outros3; ela tinha poucos amigos próximos. Por toda sua adolescência, autoridades como professores, empregadores, líderes de tropa, pastores e conselheiros do Federal Student Aid comentavam que a jovem gestante ‘aparentava ter expectativas muito, muito altas de si mesma’, e enquanto esses comentários eram frequentemente mencionadas num espírito de preocupação gentil ou repreensão, não havia como não discernir neles certo inequívoco tom de aprovação, - do julgamento imparcial e objetivo e decisão de aprovar – e de qualquer maneira a futura mãe sentia (por um momento) aprovada. E se sentia vista: seus padrões eram altos. Ela tomava certo orgulho abjeto em sua inclemência consigo mesma4
2) Os pais dela tinham sido de baixa-renda, fisicamente imperfeitos,  e não muito inteligentes – características que a criança  se detestava por perceber.
3) As expressões relaxa ou fica tranquilo não tinham àquela época se tornado correntes (assim como merda psicológica; nem abuso de pais ou até mesmo perspectiva objetiva)
4) De fato, uma explicação que os próprios pais da future mãe davam por discipliná-la tão pouco era que sua filha parecia se censurar tão impiedosamente por qualquer insuficiência ou transgressão que discipliná-la pareceria, citação, “um pouco como chutar um cachorro”.
Já pela época em que ela era crescida, seria acurado dizer que a futura mãe de fato estava tendo muitas dificuldades internas.
Quando ela se tornou uma mãe, as coisas ficaram ainda mais difíceis. As expectativas da mãe de sua pequena criança também eram, por fim, impossivelmente altas. E cada vez que a criança ficava aquém, sua inclinação natural era odiá-la. Em outras palavras, toda a vez que ela (a criança) ameaçava comprometer os altos padrões que eram tudo que a mãe sentia realmente ter, dentro, o auto-ódio instintivo da mãe tendia se projetar para fora e para baixo na direção da criança em si. Esta tendência se agravava pelo fato que existia apenas uma separação muito pequena e indistinta na mente da mãe entre sua própria identidade e a da pequena criança. A criança aparentava em certo senso ser o próprio reflexo da mãe em um espelho diminuidor e profundamente falho. Portanto toda vez que a criança era rude, gananciosa, abominável, estúpida, egoísta, cruel, desobediente, preguiçosa, tola, voluntariosa, ou infantil, a inclinação mais profunda e natural da mãe era odiá-la.
Mas ela não podia odiá-la. Nenhuma boa mãe pode odiar sua criança ou julgá-la ou abusá-la ou desejá-la nada de mal. A mãe sabia disso. E seus padrões para si própria como mãe eram, como era de se esperar, extremamente altos. E então toda vez que ela ‘escorregava’, ‘estourava’, ‘perdia sua paciência’ e expressava (ou até sentia) ódio (ainda que breve) pela criança, a mãe imediatamente mergulhava em tamanho abismo de auto-recriminação e desespero que ela sentia que simplesmente não poderia aguentar. Consequentemente a mãe estava em guerra. Suas expectativas estavam em conflito fundamental. Era um conflito em que ela sentiu que sua vida em si estava em jogo: um fracasso em superar sua insatisfação instintiva com sua criança resultaria em uma terrível, estilhaçante punição que ela sabia que seria ela que ministraria, dentro. Ela estava determinada – desesperada – em ser bem sucedida, em satisfazer suas expectativas de si como mãe, custe o que custar.
De uma perspectiva objetiva, a mãe era incrivelmente bem-sucedida em seus esforços de autocontrole. Em sua conduta externa para a criança, a mãe era infatigavelmente amável, compassiva, empática, paciente, calorosa, efusiva, incondicional, e desprovida de qualquer capacidade aparente de julgar ou reprovar ou recusar amor em qualquer forma. Quanto mais desprezível era a criança, mais amável a mãe exigia de si mesma ser. Sua conduta era, por qualquer padrão do que uma mãe extraordinária deveria manter, impecável.
Em troca, a pequena criança, enquanto crescia, amou a mãe mais do que todas outras coisas no mundo colocadas juntas. Se tivesse a capacidade de falar de si verdadeiramente de alguma maneira, a criança teria dito que se sentia como muito uma criança perversa, detestável que por meio de alguma imerecida jogada de ótima sorte conseguiu ter a melhor, mais amável e paciente e linda mãe do mundo inteiro.
Dentro, enquanto a criança crescia, a mãe se enchia de auto-ódio e desprezo. Certamente, ela sentia, o fato que a criança mentia e trapaceava e aterrorizava os bichos de estimação da vizinhança era culpa da mãe; certamente a criança estava simplesmente expressando para todo o mundo ver suas próprias deficiências patéticas e grotescas como mãe. Então, quando a criança roubou o dinheiro da UNICEF que sua turma tinha recolhido ou agarrado um gato pela cauda e golpeado ele repetidas vezes contra a quina da casa de tijolos do vizinho, ela tomou as deficiências grotescas da criança para si própria, recompensando as lágrimas e auto-recriminações da criança com um perdão de amor incondicional que fez com que ela aparentasse para a criança ser seu único refúgio em um mundo de expectativas impossíveis e julgamentos impiedosos e infinita merda psíquica. E enquanto ele (a criança) cresceu, a mãe tomou tudo que era imperfeito nele bem fundo dentro de si e aguentou tudo e então o absolveu, redimindo-o e renovando-o, na mesma medida em que ela acrescentava ao seu próprio fundo de ódio.
E assim foi, por toda sua infância e adolescência, de tal maneira que, quando a criança era velha o bastante para se registrar para várias licenças e habilitações, a mãe estava quase inteiramente cheia, profundamente, com ódio: ódio por si própria, pela criança infeliz e delinquente, por um mundo de expectativas impossíveis e julgamentos impiedosos. Ela não podia, claro, expressar nada disso. E então o filho – desesperado, como são todas as crianças, para retribuir o amor perfeito que só pode se esperar de mães – expressou isto tudo para ela.