domingo, 23 de fevereiro de 2014

A respeito do panorama sobre literatura contemporânea publicado pela Folha

Pouco tempo atrás eu teria lido com bastante interesse esta enquete feita pela Folha sobre literatura brasileira contemporânea. Para quem tá com preguiça, como eu, mas talvez queria um pouco não estar com preguiça, aqui vai um resumo que acabei de inventar (sem ter lido) que muito provavelmente se aplica ao que foi publicado:
1) Vai ter o velho que fala que na época em que ele não era velho era tudo bem melhor, nossa. Anos cinquenta, putz, Guimarães e Clarice publicando, era outra coisa - esquecendo completamente que não eram apenas Guimarães e a Clarice publicando, que as obras de valor são sempre minoria numérica; grande novidade: autores esquecidos são tão esquecidos que as pessoas esquecem que esqueceram.
2) Vai ter o não-tão velho que admira o velho (ou algum colega do velho) que realmente, putz, no outro dia eu li um romance e foi ruim, nunca mais, me deixa aqui com meu Graciliano (só a parte boa, por favor, não me venha com esses Caetés aí não)
3) O sujeito que diz que há grande diversidade no panorama atual... como se na literatura moderna isto não fosse característica de praticamente qualquer sistema intelectual minimamente saudável (não confundindo saudável com robusto, claro). Faulkner e Hemingway publicavam contemporâneos um ao outro, Kurt Vonnegut e John Barth, Raymond Carver e as primeiras obras de destaque do Cormac McCarthy... Este não está errado, mas saímos da leitura de sua opinião sabendo o mesmo que quando entramos.
4) O que gosta de tal assunto e reclama que as pessoas não escrevem sobre o assunto que ele gosta (cadê o ativismo, cadê a experimentação, cadê qualquer coisa), ou escrevem pouco sobre aquele assunto, ou escrevem mal sobre aquele assunto. Quando na verdade não é o assunto que tem pré-existência a ser posteriormente preenchida pelo autor, e sim o assunto que ganha formato específico (pautado pelo tratamento literário aplicado) quando escolhido pelo autor.(Até o velho romance-sobre-futebol que sempre "estava faltando" ao mesmo tempo encontra-e-não-encontra seu cumprimento no livro O Drible, do Sérgio Rodrigues, que é bem mais sobre ressentimento do que sobre futebol: quem diria que o "passatempo nacional" encontraria tamanha expressão literária em um dos textos mais negativos da nossa literatura?).

O problema estrutural desses panoramas é bem simples: o leitor de Literatura (este panda praticamente extinto) não mantém um relacionamento com nenhum panorama, e sim com obras específicas, quando muito com determinados autores. Gostar de um livro lançado em 1987 não quer dizer nada a respeito de outros livros de 1987. Talvez até seja possível encontrar algumas similaridades dependendo do espírito da época (claro que ignorando as obras que não se encaixam), mas a diferença de qualidade de uma tentativa em relação a outra sempre vai ser enorme, e sempre vai ser o principal. O interesse por panoramas é apenas de acadêmicos e especialistas: sei porque já tentei ser um, já li um monte desses a respeito do período que estudei no meu mestrado, são textos sempre infatigavelmente idênticos, inevitavelmente vagos e prolixos, uma listagem comentada de autores que poderia se resumir muito bem a apenas a listagem deixando para o leitor descobrir de quem ele gosta e quem ele vai ignorar. Não estou falando da qualidade específica do panorama publicado pela folha, só estou ressaltando que os textos desse gênero são bem menos úteis do que parecem. Existe sim um sistema literário (passei páginas demais da minha dissertação argumentando isto) que exerce sua influência na publicação e até mesmo na recepção das obras: mas se a obra de destaque ganha seu destaque justamente na atipicidade, para que tanto interesse em generalizações?

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Outro problema, claro, ao falar de literatura contemporânea é que a ausência (estruturalmente onipresente) de um cânone dificulta discussões mais afundo. Se falamos sobre Dom Casmurro, podemos entrar em mais detalhes pois imagina-se que boa parte da plateia (do mundo dos leitores de literatura, claro) tenha lido o livro. Se falamos sobre, sei lá, Rubens Figueiredo, a quantidade de detalhes que se pode adentrar sem alienar a parcela de não-leitores é bem menor. Posso falar com mais tranquilidade do enterro do Escobar narrado por Bentinho, mas não tanto das dez-ou-vinte páginas bizarras em que o narrador do Passageiro do Fim do Dia fica falando sobre um clone de GTA que um rapaz joga numa lanhouse.

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Lição do post:  não leia o contemporâneo para ter uma ideia do que está acontecendo. Para se aproximar minimamente disso será necessário ler uma quantidade irrazoável de obras, e necessariamente a maioria será bem ruim (já estive nesta onda, e até entrei nela no modo vintage quando fui ler a produção não-canonizada da literatura brasileira dos anos 70). De qualquer forma quem vai entender tudo bem melhor do que você conseguiria vai vir depois de tudo isto que está acontecendo, isto é, depois de você. Leia o contemporâneo se te parece que aquele livro específico pode ser uma boa leitura.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Mais traduções que venho fazendo para não ficar fazendo meu romance - On being blue

Parágrafo final do "on Being Blue" do William Gass

(a propósito, o azul no livro é meio que metáfora para o literário, mas a argumentação do livro é bem longe de ser organizada de uma forma a ser possível delinear os detalhes do que ele está dizendo. É um ensaio meio que em fluxo de consciência)

Então ao escritor desgraçado eu gostaria de dizer que existe um corpo cujo pedido seu de carícia nunca é vulgar, nunca é impuro, inconveniente ou impolido; pois você deve se lembrar de que suas atenções não se destinam apenas a celebrar beleza como também para criá-la; que é seu um amor que traz seu próprio parto, da maneira como Platão declarou, e que você deve portanto desistir das coisas azuis desse mundo em favor das palavras que as dizem: lápis azuis, narizes azuis, filmes, azuis, leis, pernas azuis e meias, a linguagem dos pássaros, abelhas, e flores da forma como são cantadas por estivadores, aquela aparência plúmbea da pele quando afetada pelo frio, contusão, doença, medo, cântico e reza, já que o dia pode começar mal, numa luz empapada que molha a alma antes da consciência conseguir quebrar de forma que cada pensamento está umedecido como uma testa ansiosa, desejo não centelha,  e o pau matinal está mole... consequentemente fale e louve, pois a queda do espírito, descendendo feito um mergulhador na direção do chão do oceano, é marcada por uma escuridão crescente, verde virando naval, então um espectro de tonalidades da espessura de um fio de cabelo que aparece para pousar, entre peixes nevando e plantas pálidas feito papel, em uma noite sem norte. E nossas linhas são longas embaixo d'água, largas e magricelas, curvando-se contra si próprias como as pernas de uma aranha morrendo; nossas feições se afrouxam em melancolia, e o azul que marca a mudança é pesado, espesso feito lodo... então grite e celebre antes que a sombra cubra a janela: sangue azul, azul em bolas, boinas, barbas, casacos, colares, chips e queijo... enquanto há tempo e você é capaz, porque quando azul tiver abandonado as bordas de seus objetos como se o mundo tivesse sido branqueado dele por completo, quando o amplo olho azul se fechar para a temporada, quando não há mais nada além da linguagem... penumbra aguada, oceano azedo... não se pense um clero esvaziado de coro e cânticos... cante e conclame... a despeito da dor de barriga e da solidão, a nova gordura acumulada e pele descamante e bebedeira e fúria desamparada, a despeito de foras, choros, segundas-feiras, folhas de papel como pratos sujos, o amanhã despencando na sua direção feito um edifício, fique aguardando aquele momento miraculoso em que em sua boca os dentes se transformam em dragões e você contra as probabilidades faz o que Demóstenes fez no Egeu: forme com pedrinhas sílabas e faça soar a rocha; assim avisado e encorajado, comandado, advertido, persista... ainda que o colchão em que você se enluta seja entornado e aqueles cantos onde os rolos de moedinhas se abrem feito frestas para engoli-las, relógios se arrastam, e tendo tido talvez alguma chuva torrencial, ou fumaça de fábrica, um vento envelhecido e ar invernal, e tudo é cinza.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Só pro negócio não ficar inteiramente morto

Sobre a possibilidade da escrita oferecer algum alívio para o autor:

"Poetry is cathartic only for the unserious, for in front of the rush of expressive need stands the barrier of form, and when the hurdler's scissored legs and outstretched arms carry him over the bars, the limp in his life, the headache in his heart, the emptiness he's full of, are as absent as his street-shoes which will pinch and scrape his feet in all the old leathery ways once the race is over and he has to wlak through the front door of his future like a brushman with some feckless patter and a chintzy plastic prize"
(Ensaio "the doomed in their sinking", do livro The world within the word, do William Gass)

(Pelo que posto provavelmente passo a impressão de ser um fã maior o William Gass do que realmente sou. É que eu geralmente posto trechos incríveis e trechos incríveis é o que mais se encontra lendo a obra dele, só que a somatória do resto de maneira geral não mostra muita coisa surpreendente. É um mestre da estilística, sem dúvida, mas geralmente me surpreendo pela beleza da forma com a qual ele expressa as ideias em vez das ideias em si expressadas. Talvez sirva para mostrar que o elogio de "altamente citável" (de ter vários olha-sós em sua obra) para um escritor talvez seja superestimado; o Coetzee, por exemplo, raramente me aparece com algum trecho de tirar o fôlego e é escritor bem maior que o Gass)

Enfim, aqui vai uma tentativazinha de traduzir o parágrafo acima. O fim não ficou ótimo, mas não consegui criar nada melhor:

 "Poesia é catártica apenas para os que não são sérios, pois diante do afã da necessidade de expressão jaz a barreira da forma, e quando o saltador de obstáculos com suas pernas em movimentos de tesoura e braços esticados pro ar consegue se carregar por cima das barras, o manquejar de sua vida, a enxaqueca de seu coração, o vazio do qual ele está cheio, estão tão ausentes quanto seus sapatos de rua que vão beliscar e arranhar seus pés em todas suas antigas maneiras uma vez que a corrida acaba e ele tem que atravessar a pé a porta da frente de seu futuro feito um pintor com algum tagarelar inútil e uma porcaria de prêmio de plástico"

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Lobo Antunes

Resolvi iniciar 2014 (não sou imune a essas coisas) lendo Lobo Antunes, autor que simplesmente despertou minha sensibilidade para a estilística (esta fissura que hoje me domina, ainda que com objetivos diferentes do que a elegância) quando o li pela primeira vez aos dezenove anos. Ou vinte, não tenho certeza. Nem sempre tenho a energia (ou não-preguiça) de acompanhar sua prosa saltitante-entre-cenas, mas aparecendo do nada coisas como 

"e as cortinas a dilatarem a noite dado que é através dela que as sombras respiram"

certamente fazem valer o esforço. Ainda estou no início, mas no meio do segundo capítulo finalmente pude mais ou menos apreender a forma de organizar a exposição de mundo, personagem e acontecimentos que ele usa nos romances Manual dos inquisidores adiante (a partir do qual ele usa aquele estilo de palavras meio que jogadas na página): é como se as coisas fossem aparecendo meio que num tag cloud ( http://en.wikipedia.org/wiki/Tag_cloud ), sem esquema de tamanho diferenciado, em que o leitor é forçado a montar o mundo em sua cabeça não por uma ordenação razoável dos fatos e sim ir catando estilhaços de algum acidente que aconteceu antes dele chegar. Na maioria dos romances é possível fazer um tag cloud emotivo (sei lá, Machado de Assis seria burguesia - ironia - ceticismo - rio de janeiro, assim adiante, não vão me cobrar isto pelamor), no caso do Lobo Antunes são os próprios eventos que são justapostos fora de um encadeamento cronológico, ou cronológico-remontado (in media res e tal). O cronológico está mais para liquidificado, nos livros dele. 

Não tenho leitura suficiente da ampla literatura de fluxo-de-consciência para poder falar a que ponto isto é coisa dele ou não, mas é verdade também que acho o Ser Original em sua maior parte uma qualidade bastante superestimada em muitas empreitadas artísticas.


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Listinhas de melhor do ano eu sempre fui incapaz de fazer, porque nunca me ative muito a ler um livro por ter sido lançado muito recentemente. Acontece de uma obra ou outra ser lida assim que aparece, mas acho que nem li 5 livros primeiramente impressos em 2013 para poder fazer uma lista 2013 direito. E na verdade não sei também se conseguiria fazer uma lista de livros lidos em 2013 que eu achei memoráveis sem ter que fazer um esforço de memória bem grande (a coisa fica meio embaralhada dentro da minha cabeça) o que acaba por minar a noção de leituras memoráveis, não é mesmo. Sei que ficou muito na minha cabeça o Civilwarland In Bad Decline, do George Saunders, uma mistura de Vonnegut com DFW que conseguiu me impressionar com a sagacidade da sátira e me comover com uma humanidade que irrompe no meio dos estereótipos idiotizados (o pessoal que literariamente estetiza idiotia aqui pelo Brasil poderia bem ler o Saunders), me rendendo vários momentos de erguer-a-cabeça-durante-a-leitura. Foi o suficiente para ter comprado toda a obra em paperback disponível dele. Só que depois fui ler o Pastorlalia e achei uma leitura talvez até abaixo do razoável justamente por ser excessivamente parecido com o Civilwarland, reação minha que me deixou meio perplexo porque eu já imaginava a esta altura (depois de tanto esforço gasto com esta coisa de literatura) já saber mais ou menos o que eu gostava. Enfim, lembrando aqui neste momento sei dizer que este ano eu li The Recognitions, do Gaddis, que de fato é um grande livro (não só um livro grande), mas a fissura com autenticidade não me comove grandemente, e tentei duas vezes (em sequência) começar o Gravity's Rainbow, só que o esquema personagens cardboard cutout feito pelo Pynchon me impediu de seguir muito adiante. E o Middle C do Gass comprovou minha tese que não se escreve grandes obras depois dos oitenta anos (apesar de ótimos trechos aqui e ali).

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sugestão para uma tradução brasileira de Infinite Jest

A tradução "perfeita" de Infinite Jest se mostra impossível a partir do título. É uma citação de Hamlet (o pobre yorick, etc), que é uma peça sem uma "tradução padrão" em nosso meio cultural. A palavra jest se traduz dificilmente pro português: a linhagem imediata dela do inglês é jester, bobo da corte, que não tem no português correspondente em forma de verbo ou substantivo para descrever o que seria o "ato básico" do jester. A palavra brincadeira é corriqueira, dia-a-dia, demais para jest, que é uma palavra antiga. Só que não é só antiga, é antiga mas ainda está bastante presente (tanto pela palavra jester, em todos os baralhos do mundo, ou na expressão "surely you jest" que é meio que utilizada num pedantismo auto-irônico).

As palavras antigas do português para falar brincadeira, no entanto, todas tem uma sonoridade ou aparência excessivamente esquisitas (em um livro que faz do esquisito ferramenta frequentemente utilizada, e portanto não precisa de mais ainda do que já tem). Galhofa faz lembrar farofa, chiste tem uma sonoridade horrível, gracejo a palavra praticamente usa um monóculo: tudo isto daria ao livro uma aparência de rebuscamento que não é desejável (uma vez que faz do rebuscamento ferramenta frequentemente etc... é um livro complexo, é).

(a tradução portuguesa botou piada, o que a princípio eu achei horrível, mas o Galindo me disse que parece que por lá eles usam a palavra de forma diferente de nós: eles podem dizer "não vi piada nisto" para falar que não se viu graça... o que faz a coisa funcionar melhor, certamente)

A palavra graça tem subtons religiosos, que ainda que não sejam inteiramente descabidos dado o forte eixo de moralidade/ética e de certo conservadorismo esganiçado presentes no livro, e acaba por trazer tudo isto pro título, distorcendo um pouco. Alguma distorção é inevitável, claro, e acabam por acontecer justamente nos pontos-problema, caso declarado aqui neste título. Graça infinita, no entanto, parece algo inteiramente positivo, objetivo-de-vida e tudo mais, algo que colocado no contexto da questão maldição-de-midas do hedonismo realmente faz com que a solução seja ao mesmo tempo declaração-de-fracasso. Parece no fim a escolha do Galindo foi "Infinda Graça", trazendo a ambiguidade do hedonismo pro título do livro (com sua subjacente sonoridade de "e o fim da graça"): ainda que seja uma intervenção pesada por parte do tradutor, colocando a mais no título não só a religiosidade do "graça" como a armadilha do infinda e deixando a coisa bem sobrecarregada, acabo por achar que é uma escolha razoável (já que é um livro também sobre o excesso).

[edição posterior e tardia: parece que ele optou de volta pelo Graça Infinita, mais discreto. Não sou contra.]

Ainda assim, no outro dia eu acabei pensando numa outra opção que não vi sendo discutida pelos blogs e caixas de comentários e etc mundo afora. Eu pensei na possibilidade de fazer algo do tipo "Infinite jest - a brincadeira sem limites" ou "(...) - o filme mortífero".

Vários filmes com expressões em inglês meio intraduzíveis como Pulp Fiction, Crash (o do Cronenberg/Ballard), ou Highlander, acabam chegando aqui no brasil mediados pela prática bastante esteticamente questionável de colocar um subtítulo em português mercadologicamente explicativo (tempos de violência, chamando quem quer ver filme violento, estranhos prazeres, para quem quer ver filmes esquisitos, ou guerreiro imortal, aparentemente chamando o interesse de todo mundo dos anos 80). Trazer isto para o livro tem várias vantagens. O Infinite Jest é, no livro, um filme, afinal de contas (que ainda que seja de vanguarda traz como objetivo exclusivo o prazer do expectador, o que para executivos das empresas cinematográficas é o objetivo de todo filme), e o romance discute com grande frequência e profundidade a cultura de massa e de como que ela em si é uma espécie de hedonismo (arqui-inimigo e objeto de fascínio do livro); traz-se à tona com este subtítulo não só uma prática da cultura de massa brasileira, como também fica sublinhada a distância da cultura americana em relação a nossa própria realidade, o que a meu ver é algo bom de se ter no batente da porta de entrada do livro. O Infinite Jest, ainda que ele obviamente tenha várias questões que são Universalmente Relevantes, é a narração de um mundo que é extremamente americano: suas artificialidades (não só as inerentes ao ofício literário, já que é um livro em que a artificialidade juro que este é o último parênteses assim) serão ainda mais alienígenas dado nosso contexto de capitalismo mambembe, em que todo em voz alta todo mundo é mei esquerdinha e que fica xingando no twitter que o Black Friday não ter descontos de verdade, ó desgraça.

E, claro, outro ponto forte desta opção é o fato que fiquei um tempão rindo quando pensei nela.

A desvantagem clara é de que é uma escolha tradutória editorialmente (mercadologicamente) impraticável, já que poucas pessoas das poucas pessoas que vão se dispor a comprar a mercadoria Obra Prima da Literatura Norteamericana vão querer algo que remonte tão fortemente ao trash na capa e lombada de seus enfeites de estante. Já não basta a editora ter de custear uma tradução gigantesca (o tradutor é pago por laudas, afinal) e guardar todo aquele estoque encalhado (que ocupa bem mais espaço do que um livro normal), acho que seria pedir demais pedir que eles levem um prejuízo ainda maior com a empreitada. De qualquer maneira fica aí minha sugestão platônico-trash, que se não serviu de nada pelo menos me deu algum tempo de ficar-rindo-sozinho.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Preâmbulo do Suttree, traduzido

Um parto árido, traduzir este troço. Três páginas, em bem mais do que três horas.

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Caro amigo agora nas empoeiradas horas semrelógio do município quando as ruas jazem negras e fumegantes na esteira dos caminhões-pipa e agora quando os bêbados e os sem-teto lançados às praias apoiados por paredes em becos ou lotes abandonados e gatos avançam de ombros altos e se inclinam nos perímetros cruéis dos arrabaldes, agora nesses corredores de tijolo ou godo enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fiosdeluz fazem uma harpa gótica de portas de porão alma nenhuma andará salvo você.

Velhas paredes de pedra insondadas pela meteorologia, alojadas em seus estriados ossos fósseis, escaravelhos de calcário pregueados no chão deste outrora mar interno. Árvores finas e escuras através das estacadas férreas além onde os mortos mantém sua própria pequena metrópole. Curiosa arquitetura marmórea, estela e obelisco e cruz e pequenas pedras desgastadas pela chuva onde nomes se obscurecem com os anos. Terra abarrotada com amostras do ofício do fazedor de caixões, os ossos empoeirados e seda apodrecida, mortalhas manchadas de carniça. Lá fora sob a luz azul da lâmpada os trilhos de carrinho rodam para a escuridão, encurvados feito esporões de galos no crepúsculo pechisbeque. O aço vaza de volta o calor do dia, você pode senti-lo pelos chãos dos seus sapatos. Depois dessas enrugadas paredes de armazém descendo pequenas e arenosas ruas onde automóveis estourados amuam em pedestais de concreto. Através de viveiros de sumagre e uva-de-rato e madressilva dando para os bancos de barro marcados da ferrovia. Vinhas cinzas enroladas pela esquerda neste hemisfério norte, o que as serpenteia molda as conchas do mar. Ervas daninhas brotam de cinzas e tijolos. Uma pá a vapor erguida em abandono solitário contra o céu noturno. Cruze aqui. Perto das agulhas e das eclises onde motores tossem feito leões no escuro do patio. Para um município mais escuro, depois de lâmpadas cegadas por apedrejamento, depois de choças oblíquas e fumegantes e cães de porcelana e pneus pintados onde crescem flores sujas. Pavimentos térreos rachados de ruínas, lento cataclismo da negligência, os fios que barrigam poste a poste cruzando as constelações dependurados de fios de pipa, engravatados com pedaços de gargalos de garrafas ou brinquedos das crianças mais pequenas. Acampamento dos amaldiçoados. Recintos talvez onde leprosos gotejantes erram sem sinos. Acima o calor e a improvável linha do céu da cidade uma lua de latão ascendeu e as nuvens escorrem feito tinta aguada. Os prédios estampados contra a noite como um baluarte direcionado a um abandonado mundo mais adiante, velhos propósitos esquecidos. Conterrâneos vem por milhas com a terra agarrada aos seus sapatos e sentam o dia inteiro como mudos no mercado. Esta cidade construída sob nenhum paradigma conhecido, arquitetura vira-lata lendo pra trás por meio das obras do homem em uma breve delineação dos aberrantes desordenados e loucos. Um carnaval de formas aprumado na planície fluvial que secou a seiva da terra por milhas do arredor.

Paredes das fábricas de tijolo velho e escuro, trilhas de uma linha de espora crescida com ervas daninhas, um curso de drenagem azul e putrefato onde filamentos escuros de impurezas sem nome balançam na correnteza. Painéis de estanho entre vidros nas molduras enferrujadas das janelas. Há um riso em forma de lua no globo da lâmpada de rua em que uma pedra foi e deste orifício ali venta abaixo pelo helix constante de insetos desejosos uma esvaída e contínua chuva das mesmas formas queimadas e sem vida.

Aqui na boca do riacho os campos correm até o rio, a lama em delta e despindo de seu rico aluvial ossos abrigados e lixo medonho, um sargaço de madeira de caixotes e camisinhas e cascas de frutas. Latas velhas e jarros e artefatos caseiros arruinados que se erguem do atoleiro fecal das planícies como pontos de referência nas áreas sem rastros da plaina de dementia praecox. Um mundo além de toda fantasia, malevolente e tátil e dissociado, as lâmpadas explodidas como pólipos tosquiados semitranslúscidos e cor-de-caveira balançando cegamente em descida e espectrais olhos de óleo e agora de novo as formas encalhadas e fedorentas de humanos fetais inchados como jovens pássaros de olhos arregalados e azulados ou de um cinza rançoso. Além no escuro o rio flui em um lodo indolente direcionado aos mares meridionais,  saindo correndo do milho achatado pela chuva e outros plantios triviais e jardins do barro do rio de donos de terra continente acima, raspando seu caminho como pó ósseo, carretado com o passado, sonhos dispersados na água de alguma maneira, nada jamais perdido. Casas flutuantes correm pelas suas amarras. A lama da maré morta pela costa jaz acanelada e escorregadia como a cavernosa posta de peixe de alguma besta imensamente naufragada e além o continente se desenrola para o sul e às montanhas. Onde caçadores e mateiros uma vez dormiram em suas botas diante da luz morrediça de suas mil fogueiras e seguiram adiante, velhos antepassados teutônicos de olhos incandescidos pela luz visionária de uma rapacidade massiva, onda após onda dos violentos e insanos, seus cérebros atiçados com análogos sem rasto de tudo que já foi, arianos esguios com seu revogado livreto semítico reencenando dramas e parábolas nele contidas e esvaziados de pensamentos e pálidos com uma ânsia que nada salvo a total restituição das trevas poderia aplacar.

Nós somos vindos a um mundo dentro do mundo. Nestes alcances alienígenas, nestes afundamentos malgrados e devastadas terras intersticiais que os justos vêem de carruagem e carro outra vida sonha. Malformados ou negros ou degenerados, fugitivos de todas ordens, estrangeiros em qualquerterra.

A noite está quieta. Como um campo antes da batalha. A cidade assaltada por uma coisa desconhecida e virá da floresta ou do mar? Os encarregados do muro emparedaram as paliçadas, os portões estão fechados, mas eis que a coisa está dentro e pode você adivinhar sua forma? Onde ele é mantido ou qual a medida de seu rosto? Será ele um tecelão, uma lançadeira ensanguentada arremessada por uma deformação no tempo, um cardador de almas do tecido do mundo? Ou um caçador com seus cães ou carregam sua carreta morta cavalos de osso pelas ruas e chamaria ele seu ofício para cada um? Caro amigo ele não é algo no qual se pode alongar pois é por este expediente que ele é convidado para dentro.

O resto de fato é silêncio. Começou a chover. Chuva leve de verão, você consegue vê-la caindo inclinada nas luzes do município. O rio jaz em um graal de quietude. Aqui da ponte o mundo embaixo aparenta um presente de simplicidade. Curioso, não mais. Embaixo aqui na gruta de luz caída um gato transpira de pedra a pedra através de godos preto líquido e costurado em rápidos antípodas sobre a rua chuvaescura  para sumir gato e contragato nas obras fendidas além. Iluminação pálida de verão longe rio abaixo. Uma cortina está ascendendo sobre o mundo ocidental. Uma chuva fina de fuligem, besouros mortos, pequenos ossos anônimos. A audiência senta enteiada em pó. Nas cavidades oculares evisceradas da caveira do interlocutor uma aranha dorme e as ruínas em junção do tolo enforcado dependuram-se das moscas, pêndulo ósseo variegado. Formas quadrúpedes vão pra lá e pra cá por cima das tábuas. Formas mais rudes sobrevivem.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pensamento do dia, depois de quase terminar de traduzir um conto do DFW

Pegar um texto literário de linguagem trabalhada e passá-lo de um idioma pra outro é tipo transpor uma dança para um novo lugar onde a gravidade funciona de forma diversa e os dançarinos tem um número diferente de pernas.